quarta-feira, 30 de junho de 2010

Internet e Ensaísmo

Capa do site Digestivo Cultural



por
Julio Daio Borges*



Desde o final da década de 90, eu ouço que a internet só comporta textos curtos. A justificativa seria de que as pessoas não querem mais ler, não têm mais tempo etc. Talvez seguindo esse princípio, comecei o Digestivo Cultural em 2000 com “notas curtas”, que eu distribuía semanalmente em forma de newsletter. Confesso que também queria experimentar nesse formato. Soava leviano e engraçadinho. Às vezes, definitivo. Algumas pessoas não gostavam; a maioria se divertia.

Em 2001, vieram as “colunas”, de colaboradores jovens. Em 2002, os “ensaios”, de jornalistas e escritores veteranos. Já em meados da década de 2000, vieram as “entrevistas”. De 5 a 10 mil toques passamos a 15 e, às vezes, 20 mil toques. Não esqueço de uma coluna da Daniela Sandler em que ela conclamava os leitores a “lerem até o fim”. Em quase uma década, foram inúmeros os textos “encaminhados”, aconselhando o destinatário a “ler até o fim” (porque “valia a pena”). E aquelas minhas notas curtas foram igualmente aumentando de tamanho: se originalmente cabiam todas numa única página de Word, agora cada uma ocupava um página, às vezes mais de uma...

(Mesmo aqui: eu pedi mais espaço, porque não sabia se daria para desenvolver um raciocínio em até 3 mil toques.)

Algumas pessoas, certamente, vão argumentar, evocando Montaigne, que o pai do ensaísmo não precisava, muitas vezes, de grande espaço para tratar de um assunto. É verdade. Eu mesmo: às vezes acho que resolvo melhor um tema numa nota, do que num texto longo. Mas para pensar, como diz Harold Bloom, é preciso memória, então, para raciocinar em profundidade, é preciso de espaço. (Normalmente.)

Tudo isso para fechar com uma primeira ideia: com a experiência do Digestivo, ficou provado, para mim, que a internet não precisava se compor apenas de notas curtas. E que, portanto, poderia ser profunda.

Esse primeiro mito dos “textos curtos”, geralmente, vem acompanhado de um outro, em que, também, não acredito em absoluto: o de que as pessoas estão lendo cada vez menos. Essa discussão, a meu ver, remonta a Marshall McLuhan, quando afirmou, nos anos 60, que a palavra escrita iria ser substituída por imagens, no auge da televisão.

A internet, mais uma vez, reverteu essa tendência. Porque a Web – a interface da internet – foi concebida como uma plataforma para textos. Eu descobri que Tim Berners-Lee, o pai da criança, não queria imagens na Web – pois queria preservar a internet para “trabalhos acadêmicos” (sem interferência do “grande público”, com seus “diarinhos” e “fotos de gatinhos”). Coube a Marc Andreessen, o inventor do Mosaic (o primeiro navegador), introduzir scripts para imagens, no início dos anos 90.

E, desde o final dos mesmos 90, eu ouço que o texto, na internet, vai sucumbir às imagens, aos sons e ao audiovisual (à lógica da televisão, em suma). Naquela época, atribuíam a predominância dos textos às limitações técnicas (leia-se: internet discada). A banda larga veio, a Web 2.0 também, mas um dos maiores fenômenos destes nossos tempos, justamente, é o Twitter: que só comporta textos, que mal comporta links e que praticamente não comporta imagens. Alguém poderia objetar – como diria o Nélson Rodrigues – que o Facebook, o maior site do planeta hoje, é literalmente um “álbum de fotos”. Mas o Google, o ex-maior site do planeta, é, praticamente, só texto (ainda).

Tudo isso para fechar com esta segunda ideia: estudiosos já chegaram à conclusão de que a humanidade se comunicou “por escrito” a maior parte do tempo (aliás, o que separa “História” da “Pré-história”?). Portanto: o telefone, o rádio e a televisão seriam apenas um “interlúdio”... para a volta triunfal da escrita, como principal veículo da comunicação humana (através da Web).

Talvez não se leiam mais “livros” como antes, mas se lêem mais “escritos” com certeza.

Para encerrar, uma terceira e última colocação: eu acredito, como muitas outras pessoas, que a internet preenche o vazio, deixado pelos jornais, no que diz respeito à discussão de ideias, como uma espécie de “arena pública”, essencial ao processo democrático. A exemplo do que a imprensa era nos seus primórdios; assim como a prensa foi crucial para a reforma religiosa; e como os jornais o foram para a independência dos Estados Unidos...

No começo da internet, nossos periódicos já quase não cumpriam esse papel, porque estavam correndo atrás dos prejuízos deixados por maus investimentos feitos em TV a cabo. As redações encolhiam, os veículos dependiam cada vez mais das assessorias (e das agências de notícias), enquanto dispensavam colaboradores veteranos (e onerosos) – ironicamente, os únicos com bagagem... para discutir ideias.

No extremo oposto, muita gente boa já chamou a blogosfera de “a maior conversação da história”. Talvez não com a mesma profundidade de um Montaigne, que dialogava com os clássicos, gregos e romanos, mas devemos considerar que os blogs têm poucos anos de vida, estamos aprendendo a falar ainda, a discutir, a ouvir... Abrimos a “caixa de pandora” da comunicação, estamos vendo como ficamos no espelho, estamos propagando nossas idiossincrasias, estamos atacando reputações que nos parecem excessivas...

Enfim (juntando as três coisas): eu tenho certeza de que a internet pode ser profunda, de que, graças a ela, estamos retomando a leitura (e a escrita), e de que, gradativamente, vamos retomar o melhor da discussão de ideias e, voilà, do ensaísmo. Montaigne, se conhecesse a Grande Rede, talvez se assustasse com ela, com a sua multiplicidade de vozes, preferindo a quietude de sua biblioteca inesquecível. Mas se é, igualmente, certo que as bibliotecas estão, progressivamente, migrando para a Web, será apenas uma questão de tempo até surgir... o Montaigne da internet.

E o ensaísmo fechará mais um ciclo. ;-)


* Julio Daio Borges é editor do site Digestivo Cultural.

Hackers, jornalistas e a importância do pensamento computacional




por
Diego Sieg*


Tente imaginar o mundo atual sem a revolução promovida pelos Hackers, durante as décadas de 1980 e 1990. Praticamente impossível, não acha? Afinal, cada vez mais, os aparelhos computacionais estão presentes em nosso dia-a-dia. Seja em casa, no trabalho, dentro do carro, do ônibus, na rua ou, até mesmo, no espaço estamos sempre plugados com o mundo e, sobretudo, com todos. A ousadia destes desbravadores tecnológicos em criar e propor soluções aos diferentes desafios, despertou e, consequentemente, moldou uma nova etapa da sociedade. Microcomputadores, interfaces gráficas, World Wide Web, mobile e games encontram-se entre tantas outras ideias inspiradoras que transformaram a maneira como nos comunicamos, trabalhamos, produzimos etc. Enfim, é inegável o poder que estas tecnologias exercem ou exerceram sobre o nosso passado, presente e futuro. Mas, e o jornalismo? Como podemos nos beneficiar dessas tecnologias para melhorar a nossa prática de trabalho?

As respostas são muitas e a cada segundo novas soluções começam a emergir dentro das redações espalhadas por todos os cantos do planeta. Contudo, muitas dessas transformações são, geralmente, confusas e traumáticas. Afinal, como devemos readaptar o fluxo de trabalho e direcionar a cabeça dos antigos e novos profissionais para estas recentes necessidades? Um dos caminhos, proposto em um artigo do site do Instituto Poynter “How Computational Thinking is Changing Journalism & What's Next”, escrito por Kim Pearson, é o pensamento computacional. Para a autora, o "Pensar Computacionalmente" significa criar e fazer uso de diferentes níveis de abstração, para entender e resolver problemas com mais eficiência. Significa pensar algoriticamente e com habilidade para aplicar conceitos matemáticos como indução para desenvolver soluções com mais eficiência, justiça e segurança. Significa ainda entender as escalas de conseqüência, não apenas as razões de eficiência, mas também as razões econômicas e sociais envolvidas. Resumidamente, nada além dos princípios básicos e norteadores da prática hacker, que, desde sempre, teve por essência o espírito de invenção, modificação e recombinação das coisas com o objetivo de alcançar resultados diferenciados e, sobretudo, transformadores.

O jornalista do futuro, além de ser um contador de histórias e um produtor de conteúdo multimídia, deverá aliar à sua prática diária essa tal essência hacker e, com o auxílio do seu pensamento computacional, começar a utilizar de forma mais inteligente o infinito oceano informacional disponível na rede. Só assim conseguirá ser relevante e, por consequência, despertará a atenção da sua potencial audiência.

Em um primeiro momento, antes de desenvolver habilidades específicas em softwares e linguagens de programação, o profissional de comunicação deve entender as características peculiares da comunicação em rede e todas as suas potencialidades. Já em uma segunda fase, não muito distante, novas habilidades deverão ser incorporadas ao repertório profissional jornalístico, estreitando cada vez mais o laço entre as ciências da comunicação social e da computação. A multidisciplinaridade poderá ser uma necessidade vital para a sobrevivência do jornalismo. Porém, estes tais “Hackers Jornalistas”, também conhecidos como “Jornalistas Programadores”, poderão possibilitar novos horizontes à comunicação jornalístca? No artigo, “Can Computer Nerds save Journalism?”, publicado no site da revista Time, o autor, Matt Villano, promove uma discussão bastante interessante sobre esta realidade e aponta alguns dos possíveis caminhos, principalmente quanto as novas diretrizes necessárias à formação desses futuros profissionais.

Atualmente, como estamos inseridos em um mundo totalmente Beta, ou melhor, em um cenário de constante evolução e adaptação tecnológica, o jornalismo necessita mais do que nunca de inovação, experimentação e desafios. Prova disso, são as recentes propostas encabeçadas por tradicionais empresas de comunicação, como o britânico The Guardian e o americano The New York Times. Estas corporações, ao abrirem suas Api's (Application Programming Interface ou Interface de Programação de Aplicativos) à comunidade de desenvolvedores e também ao realizarem eventos de hackemento (os famosos hack days) dentro das suas estruturas operacionais, apostam na possibilidade de transformação e de readaptação do jornalismo dentro da cultura das redes interconectadas.

Afinal, mais do que apurar e escrever bons textos, para estas empresas, este novo perfil de profissional deverá saber lidar com a grande quantidade de informação proveniente de diferentes bases de dados (sejam públicas, privadas, abertas, fechadas etc), desenvolver e utilizar ferramentas de extração, filtragem, cruzamento e visualização de dados, entre tantas outras atividades computacionais ainda a serem concebidas.

Para tanto, devemos deixar alguns antigos dogmas para trás, quebrando paradigmas e mudando a maneira como hoje enxergamos a prática jornalística. A dromocrácia, imposta pelo ciberespaço, pede urgência em mudanças estruturais, sobretudo, na formação dos profissionais do amanhã. Assim, como podemos ver, os desafios são muitos, contudo, as possibilidades também são infinitas. A relevância social, essência do jornalismo, será sempre a mesma, o que mudam são as possibilidades de se trabalhar esta característica. Em prol de um jornalismo mais dinâmico, intuitivo, imersivo e, sobretudo, inteligente, devemos ousar e não termos medo usar a nossa criatividade. Inovar, desconstruir, recriar... Ficar parado, esperando o próximo trem passar, não nos levará a lugar algum. Muito pelo contrário, apenas nos colocará cada vez mais em uma posição de dependência e atraso. Afinal, como diz o ditado, quando dominamos um conhecimento, não ficamos reféns de ninguém, mas sim, passamos a ser senhores da nossa própria transformação. Que o espírito Hacker possa contaminar o jornalismo!


* Diego Sieg é jornalista, comunicólogo, pós graduando em comunicação social, freela (textos, fotos e design), mochileiro, pesquisador das áreas de cultura e comunicação em rede.

Newsgames: você vai jogar ou ler jornal?

Fonte: News Games da SUPERINTERESSANTE




por
Tiago Dória*



Uma das principais características da internet é o baixo custo, o que não somente abre espaço para que novas publicações entrem no mercado, mas também potencializa experimentações. Uma das que vem mais chamando atenção é a mistura de games e jornalismo, os chamados newsgames.

O conceito de newsgames surgiu por volta do ano de 2003, e se refere a jogos feitos com base em notícias ou em algum acontecimento em curso. O ElPais foi responsável por publicar um dos primeiros - o Play Madrid, sobre os ataques terroristas em Madri, na Espanha, em 2004. Poucos dias após a tragédia, o game já estava no ar.

Logo depois veio o The New York Times, com o Food Import Folly, sobre a falta de fiscalização na importação de alimentos nos EUA. No caso, o interessante desse newsgames é o fato de ser um editorial do jornal transformado em jogo. Em seguida, em 2007, a CNN saiu com o Presidential Pong, no qual você joga tênis com os pré-candidatos à presidência dos EUA. Cada um tem as suas habilidades desenvolvidas de acordo com o andamento da campanha eleitoral no mundo offline.

Em torno dos newsgames, tem surgido um ecossistema de pesquisadores, profissionais e empresas. Uma das principais é a Newsgaming, fundada em 2003, por Gonzalo Frasca, na época, jornalista da CNN espanhola e editor do Ludology.org, um site voltado para estudos acadêmicos de games.

Outra é a Persuasive Games, já conhecida no meio por desenvolver jogos educativos.

Trabalhar com cronogramas é um dos principais desafios para quem produz newsgames. Como o jogo é baseado em um acontecimento em curso ou que acabou de terminar, o seu desenvolvimento precisa ser rápido. É necessário um entrosamento quase perfeito entre a equipe editorial e a de tecnologia, dobradinha no jornalismo online tão importante quanto cinegrafista e repórter em telejornalismo.

Em sua maioria os jogos não tentam ser objetivos. Buscam mostrar uma linha editorial de um veículo.

No Brasil, ainda em 2008, o G1 fez alguns experimentos com o formato e lançou o AudioPops, um jogo no qual você tem que descobrir, por meio de discursos bem recentes, quem são as principais personalidades da política internacional.

Porém, o mais interessante veio do site da revista Superinteressante, que, no comecinho de 2009, lançou o Jogo da Máfia, no qual o leitor é um personagem infiltrado nas máfias globais. A intenção era mostrar como funcionam tais organizações.

Os newsgames acabam por trazer um caráter educacional e lúdico de volta ao jornalismo. Não é um formato que veio substituir outros anteriores. Pelo contrário, é mais uma forma de apresentar uma notícia. Mais uma opção, menos burocrática, aos leitores/usuários de um site de notícias.

Porém, nem tudo são flores nos newsgames. Existe muita discussão em como separar entretenimento e jornalismo, em não misturar as duas áreas ou ainda evitar que tudo não acabe em simples pirotecnia. Enfim, características de um novo formato repleto de perguntas e novos desafios.


*Tiago Dória, jornalista e pesquisador de mídia.

Marca pessoal no jornalismo

Campanha do Estadão para atingir leitores de blog



por
Tiago Dória*




É quase um caminho sem volta o crescimento das marcas pessoais no jornalismo. Com o crescimento de blogs, redes sociais e plataformas de microblogging, tem sido um caminho cada vez mais atraente e fácil para os jornalistas desenvolver a sua própria audiência e marca pessoal.

A ideia é que os jornalistas encarem blogs, redes sociais e microblogs não apenas como ferramentas de reportagem, mas também mecanismos para a construção da sua própria marca.

Em 2009, o State of News Media Report já apontava o crescimento das marcas pessoais como uma das grandes tendências no jornalismo. Por meio de blogs, sistemas de buscas e redes sociais o leitor estaria, cada vez mais, migrando das marcas institucionais para as pessoais no jornalismo

Um exemplo desse crescimento das marcas pessoais no jornalismo está no Twitter. O serviço de microblogging é formado por diversas marcas disputando atenção, o que faz com que muitas vezes um jornalista tenha mais seguidores do que o perfil do veículo para o qual trabalha.

Algo que, claro, lança um grande desafio para as empresas de jornalismo. Incentivar ou minimizar o crescimento dessas marcas pessoais e individuais sobre as institucionais?

Se a gente olhar atentamente é algo que, a rigor, já existe há um bom tempo no jornalismo. Temos os colunistas que lançam livros e carregam consigo sua própria audiência. O que acontece é que, hoje em dia, com a crescente e alta rotatividade nas empresas e a “vida de freelancer” tornando-se uma dinâmica comum entre os profissionais de comunicação, desenvolver a sua própria marca, o seu próprio público, tem se mostrado cada vez mais atraente para os jornalistas.

Outro fator que pesa para a necessidade de desenvolver a sua própria marca pessoal e online é que, cada vez mais, plataformas de redes sociais e mecanismos de busca estão se tornando sistemas de reputação. As pessoas procuram, em redes sociais e sistemas de busca, informações e referências, sejam profissionais ou pessoais, sobre outras pessoas. Portanto, para um jornalista que quer ser relevante, ter voz nesses ambientes é imprescindível.

Porém, desenvolver a sua própria marca não é nenhum bicho de sete cabeça. Ela é regida pelos mesmos princípios por meio dos quais você contrói a sua reputação entre amigos e colegas de trabalho no mundo físico - naturalidade, segurança e coerência.

Enfim, desenvolver e administrar a sua própria marca pessoal, reputação digital, é uma das novas habilidades que o jornalista deve ter. Parece ser um problema? Não vejo dessa forma, mas sim como oportunidade.

Falo isso por experiência própria. Há cerca de 7 anos, enquanto alguns viam blog como um problema, mera moda passageira, eu via como oportunidade. E foi por meio dessa ferramenta de publicação que consegui construir grande parte da minha reputação na área de jornalismo.

Um bom caminho sem volta.


*Tiago Dória, jornalista e pesquisador de mídia.

Jornalismo online ou agregador de conteúdo ?

Google News




por
Bruno Cardoso*


Segundo o Dicionário Aurélio Online, o verbo agregar significa: "reunir, amontoar, aglomerar/associar, anexar, juntar". Com essa definição, se considerarmos as expressões “agregador de notícia” ou “agregador de conteúdo” ao pé da letra, seria correto afirmar que qualquer jornal (seja impresso, digital, televisivo ou radiofônico), revista ou plataforma que publique notícias ou informações em geral é um agregador. Porém, na internet, o termo ficou popularizado para descrever programas ou sites que organizam as notícias provenientes de outros portais, jornais virtuais, sites ou blogs, de acordo com uma determinada lógica ou com os interesses de um determinado leitor/usuário, também recebendo o nome de “leitor de RSS”.


Inicialmente, descreverei de uma maneira bem simples como funciona um agregador, seja ele um software ou um website.


Primeiramente, um portal, site de notícias ou um blog qualquer disponibiliza o seu conteúdo, parcial ou integralmente, em um arquivo XML chamado "RSS feed", "webfeed", canal RSS ou "Atom". Se você quiser entender melhor o significado dessas siglas todas, visite a página sobre RSS da Wikipédia. Por enquanto, imagine uma página composta somente por textos e informações subdivididas em tags, que são compostas por um texto dentro de sinais “<” e “>”.


A idéia pode parecer confusa, mas, na verdade, não é. Por exemplo, o título de uma notícia em um arquivo XML ficaria de uma maneira próxima a essa: “O cachorro mordeu o homem”. Porém, é bom deixar claro que o XML foi criado para ser lido por computadores, mas, se um humano quiser, poderá entender o texto sem muita complexidade.


Assim, umagregador de notícias reunirá vários desses arquivos XML de diversos sites e os organizará de uma maneira lógica e simples para a leitura. A cada novo conteúdo publicado emonitorado por um agregador, o site seráatualizado automaticamente para o leitor final. Dessa forma, torna-se mais fácil acompanhar inúmeros websites de notícias sem a necessidade de entrar em várias urls, o que poderia tomar uma porção enorme de tempo.


Um bom exemplo de um agregador de notícias e, talvez, o mais conhecido deles, é o Google News, que teve sua versão beta lançada em março de 2002. Em 2009, o site já estava presente em cerca de 40 regiões e exibia notícias em 19 idiomas coletadas de quase 25 mil publicações espalhadas pelo mundo. Portanto, ao acessar o site do Google News em inglês, você tem contato com as principais notícias publicadas por quase cinco mil sites noticiosos em uma única página, divididas por categorias e permitindo que você escolha a ordem com que elas serão disponibilizadas em seu monitor. É bastante interessante e poupa um bom tempo!


Quem faz a seleção de o que é mais importante e do que merece maior destaque no caso do Google News são complexos algoritmos criados pela equipe da Google Inc, semelhantes aos utilizados na busca do Google, que levam em consideração quais notícias são mais acessadas pelo público em geral, quais foram mais citadas em outros sites, as que foram mais noticiadas em diversos veículos e tantos outros fatores que talvez nunca saibamos quais são.


Durante 24 horas por dia e sete dias por semana temos notícias atualizadas a todo segundo, com o que há de mais importante acontecendo no mundo. E isso ocorre graças aos computadores do Google, sem a necessidade do trabalho de um único jornalista. Difícil é conseguir tempo para ler tudo!


Outros agregadores permitem que o leitor selecione qual será a origem das notícias, viabilizando certa personalização do conteúdo de acordo com os interesses do usuário. Dessa forma, é possível acompanhar somente os sites que você mais gosta em uma única página. Por exemplo, se você gosta de esporte, pode cadastrar somente sites ou blogs que possuam conteúdos relacionados a esse assunto e, sempre que você checasse o seu agregador, lá estariam as últimas notícias desse tema. No entanto, apesar de filtrar somente os sites e blogs pelos quais você tem interesse, pode ser que nem todos os textos sejam realmente aproveitáveis. Por exemplo, se você gosta somente de futebol japonês e não há um único RSS focado nesse assunto, você teria que executar uma re-filtragem visual no seu agregador de notícias buscando quais notícias são relacionadas ao futebol japonês e não somente ao futebol em geral.


Para evitar esse “problema”, muito usuários vêm descobrindo que podem usar as redes sociais como agregadores de notícia. Dessa forma, as redes de relacionamento atuam como verdadeiros filtros de informações, divulgando somente aquelas que se mostram mais relevantes e condizentes com os gostos específicos de cada usuário. Em uma rede social como, por exemplo, o Twitter, o usuário pode seguir perfis com um gosto parecido com o seu. No caso do nosso exemplo acima, você pode seguir pessoas que também gostem de futebol japonês. Assim, sempre que alguém encontrar uma notícia interessante pode compartilhar o link em seu perfil, atuando como um filtro de conteúdo, exatamente como o algoritmo do Google se propõe a fazer, porém, de uma maneira mais racional e, por incrível que pareça, precisa. Isso porque, quando o assunto não é exato, nós humanos ainda somos melhores que as máquinas.


Limor Elkayam, fundadora do agregador de notícias iSpotAStory, disse,em entrevista ao Mashable: “Algoritmos computadorizados são ótimos, mas as pessoas ainda querem o elemento humano. Por isso que elas gostam de pegar notícias pelo Twitter. Há um humano por trás de cada uma delas”. Sabendo disso, o próprio Google se propôs a fazer uma experiência e colocar editores para selecionar e promover os conteúdos de seu agregador.


Infelizmente, há hoje quem confunda agregador de notícias com um cibermeio, mas isso não é de se estranhar. Ultimamente, os jornais feitos para a internet estão cada vez mais próximos aos agregadores de notícias, e não o contrário, como deveria ser. Seja de maneira clara ou não, a re-publicação de conteúdo parece ser cada vez mais corriqueira. As notícias desses jornais da internet são, na maioria das vezes, oriundas da mídia tradicional ou de outros meios digitais e transcritas ou reescritas, o que não faz muita diferença. Isso sem contar as agências de notícias que têm cada vez mais seus releases publicados na íntegra em diversos veículos, até mesmo entre concorrentes. A produção própria de notícias pode beirar o zero. É comum entrarmos em diversos portais diferentes e nos depararmos com as mesmas fotos, manchetes e, inclusive, os mesmos textos, sem alterar uma única vírgula.


Antes do advento da internet, as redações impressas chamavam isso de “cozinhar”, isto é, o jornalista que não conseguia uma boa pauta ficava na redação vendo o que os outros jornais estavam publicando e elaborava notas sobre o que encontrava de mais interessante. Na era do rádio e da TV, criou-se o termo gilete press, onde os locutores e apresentadores buscavam notícias na mídia impressa para criar montar seus boletins informativos. Hoje, no século XXI, podemos chamá-lo simplesmente de “CTRL+C / CTRL+V”.


Na minha concepção, um veículo, para ser considerado um jornal, requer a produção de conteúdo, e não somente a transcrição ou a edição de informação de terceiros. Porém, é muito comum encontrarmos na internet jornais online ou portais de notícias atuando de maneira semelhante ou igual aos agregadores de conteúdo. Hoje se faz, basicamente, a mesma coisa que se fazia no início do jornalismo na internet, que já completou mais de 10 anos de existência. Muita coisa mudou nesse período, no entanto, ainda não se descobriu qual seu papel diante das novas tecnologias. Cabe aos jornalistas o desafio de repensar sua atividade e usar as novas ferramentas para noticiar, de forma abrangente, os mais diversos assuntos, agregando alguma nova informação ao seu leitor.


É necessário investir em reportagens, visto que são elas que diferenciam um veículo de outro. Seria interessante que os profissionais da notícia aprendam um pouco com os “amadores” blogueiros e aprendam a utilizar melhor as possibilidades que a tecnologia oferece, como os hiperlinks e a possibilidade de diálogo com o leitor. E, principalmente, é preciso que os cursos de Comunicação Social se preocupem um pouco mais com o mercado que os futuros profissionais vão encontrar e os preparem com mais proximidade dessa nova realidade. Temos que pensar, refletir e decidir o que faremos com o Jornalismo Online, pois, as possibilidades são infinitas.


É necessário ter em mente que a quantidade de informação publicada a cada segundo na internet é imensurável. Você já deve ter ouvido falar em “overload” ou sobrecarga de informação, que é o resultado do fato de o internauta ser bombardeado 24 horas por dia e sete dias por semana com informações e dados. É impossível absorver e/ou utilizar tudo o que é publicado nessa verdadeira enxurrada de conteúdo, por mais “organizada” que seja. Portanto, é melhor perder um pouco mais de tempo e fazer algo que realmente valha a pena ser publicado ao invés de fornecer a mesma notícia que todos já leram em outros lugares.


Não digo que os cibermeios não devam se utilizar de sua instantaneidade e parar de fornecer notícias em primeira mão, porém, convém lembrar que existem muitos outros veículos fazendo exatamente a mesma coisa. Você só poderá se destacar se for capaz de acrescentar algo ao que todo mundo já sabe e agregar conteúdo relevante àqueles que lêem seus textos. Deixe que os computadores façam o trabalho de juntar todas as notícias em um único lugar, não há a necessidade de um jornalista para isso! Com certeza seus leitores vão agradecer.


*Bruno Cardoso é jornalista, tecnólogo da informação e pesquisador de novas tecnologias aplicadas à comunicação. Apaixonado por bits, bytes e palavras, quase um geek intelectual.

Comunicação em ONGs e movimentos: o desafio da visibilidade pública

Alunos do Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias





por
Michelle Prazeres*

O trabalho de jornalistas (eu prefiro o termo mais amplo, comunicadores) em organizações da sociedade civil e nos movimentos sociais é uma novidade dentro das próprias organizações, na política e no campo de trabalho dos comunicadores sociais. Isso vale tanto para aqueles que querem ingressar nesta carreira, quanto para aqueles que, em redações, passam a ter nestes sujeitos políticos “novas” fontes de informação.

Isso se dá, porque estas organizações - ainda que atuantes no Brasil desde a década de 60 – passam a fazer parte do cenário político nacional e internacional a partir da década de 70, com o crescimento e fortalecimento do número de entidades e também com a redemocratização do país e com a possibilidade de se afirmarem enquanto sujeitos políticos.

Ou seja, as organizações, enquanto setor da sociedade, passaram da clandestinidade para a cibercultura. Da necessidade de se esconder para a visibilidade como condição de sobrevivência e construção de sua legitimidade política. Este é um salto grande, que merece uma reflexão.

Hoje, as organizações e movimentos** sabem da importância da comunicação como estratégia de presença e visibilidade pública, que garantem notoriedade e reconhecimento para o seu projeto político. Ou seja, as coisas não estão descoladas. Comunicação e projeto político caminham juntos, e a comunicação é um dos pilares da atuação política de organizações e movimentos.

Ainda assim, são poucas as organizações e movimentos que conseguem ter setores de comunicação fortes, estruturados e com capacidade de produção e intervenção na cena política.

Frentes de atuação

As organizações e movimentos atuam em diversas frentes de comunicação, seja ela instrumento, estratégia (de articulação, de mobilização) ou política. Podemos citar algumas delas: 1. produção de comunicação, através de seus meios próprios (sites, jornais, boletins, etc); 2. intervenção na mídia, buscando pautar veículos em relação a temas e bandeiras de luta e monitorar a cobertura dos meios de comunicação em relação a assuntos específicos; 3. mobilização, buscando ocupar o espaço público para obter visibilidade; 4. comunicação “interna”, com parceiros, sócios e financiadores; e, por fim, 5. luta pela democratização da comunicação e pela comunicação como direito.

Claro que ainda há outras variações e frentes, como, por exemplo, a comunicação como instrumento de expressão política, como é o caso das organizações que trabalham com jovens comunicadores ou com produção e leitura crítica da mídia nas escolas.

É claro que esta separação em frentes é arbitrária e parte da minha prática enquanto jornalista que já trabalhou em diversas organizações, que, em jornais, já cobriu este setor e que, como pesquisadora, estuda a comunicação como estratégia política de organizações e movimentos. Inclusive, é preciso ressalvar que, justamente pelo fato de a profissão ainda não ter “acordado” para este setor enquanto mercado de trabalho, as universidades ainda não dão conta desta área na formação de novos jornalistas: nem para atuar neste mercado, nem para criar uma cultura de consultar organizações e movimentos como sujeitos ou fontes de suas matérias e investigações.

Em diálogo com colegas comunicadores que trabalham a frente de organizações e movimentos, já constatei que muito do trabalho que fazem é experimental e tem como referências valores e princípios do mercado jornalístico, que vão – na prática e processualmente – sendo adaptados e moldados para um novo cenário, com novas lógicas e novas condições de trabalho. Isso não vem sendo ensinado nem aprendido nas escolas de comunicação.

Função

O papel de um comunicador à frente de uma ONG ou movimento social é ficar atento às múltiplas dinâmicas que envolvem seu trabalho: buscar intervir no debate público, mas, por outro lado, desenvolver meios próprios de comunicação e construir a intervenção no cenário da mídia no país, lutando para ampliar as vozes no debate público. Isso tudo, usando técnicas e instrumentos que devem ser todo tempo adaptados a um mercado que não está totalmente estruturado e nem sempre é viável financeiramente.

Para os que trabalham em redação e querem cobrir temas relativos a este campo, é importante reconhecer nestes sujeitos políticos fontes para os assuntos de interesse público. E reconhecer, igualmente, as limitações do trabalho destas organizações, nem sempre estruturadas para dar conta do ritmo e da agilidade que uma redação exige.

Comunicar e dar visibilidade a assuntos que mexem com a estrutura da sociedade, que desafiam empresas e governos e que buscam dar alguma legitimidade à comunicação alternativa, popular e comunitária no país não é tarefa fácil. Ainda mais no nosso país, que sabemos, tem uma comunicação majoritariamente comercial, concentrada, monopolizada e – por isso –
construída com base em interesses privados.

Mas para quem, como eu, fez faculdade de jornalismo para mudar o mundo, é um trabalho extremamente desafiador e prazeroso. Justamente, porque cotidianamente, tenho certeza de que mudar a comunicação é mudar o mundo.

Confesso que não foi tarefa fácil igualmente produzir este texto, buscando sintetizar em algumas linhas uma reflexão que faço há mais de dez anos na vida profissional e acadêmica. Mas espero que esta conversa possa prosseguir. E deixo meus contatos para que isso de fato aconteça.


Twitter: @miprazeres
E-mail: michelleprazeres@hotmail.com



Algumas referências

Observatório da Imprensa - http://www.observatoriodaimprensa.com.br/
Observatório do Direito à Comunicação - http://www.direitoacomunicacao.org.br/index.php?
Observatório da Educação - http://www.observatoriodaeducacao.org.br/
Laboratório de Políticas de Comunicação da UnB - http://www.lapcom.unb.br/
Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social – www.intervozes.org.br
Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação – www.fndc.org.br

* Michelle Prazeres é jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutoranda em educação (FE-USP). É autora do livro “Um mundo de mídia – diálogos sobre comunicação e participação” (Ed. Global. 2009).

** Note que uso todo tempo esta expressão “organizações e movimentos”. Sabemos que dentro deste campo político, existem muitos tipos de organizações e de movimentos, mas, buscando uma categoria comum, para falar de estratégias de comunicação, encontramos nesta a melhor expressão. Ainda assim, é preciso ponderar que meu conhecimento e minha prática foram construídos em contato com algumas organizações de um campo político específico (da luta pela efetivação e garantia de direitos humanos). Portanto, igualmente, as referências sobre o papel da comunicação estão circunscritas neste marco.

O que é jornalismo ?



por
Dênis Russo Burgierman*

No meio dessa discussão complicadíssima sobre se o jornalismo está morrendo ou não, de repente me dei conta de uma dúvida anterior: afinal, o que é jornalismo?
Pelo que eu aprendi nos anos em que eu era executivo de uma grande empresa de mídia, jornalismo é uma atividade que faz parte de uma indústria. A indústria chama-se "publishing" – assim mesmo, em inglês (o pessoal da "big media" não gosta da tradução para o português, "editoração", que não tem metade do glamour).

Publishing, para resumir, é a indústria que vende anúncios, apura e organiza informações e depois vende publicações contendo informações misturadas com anúncios.

Jornalismo é a alma do "publishing". Ou, numa versão menos romântica, é a isca. Funciona assim: eu saboreio aquela reportagem fabulosa e maravilhosamente informativa e fico tão embevecido que, quando menos espero... Tóim! Fui fisgado por um anúncio de cerveja! Hmmm, que sede! E assim as grandes empresas de mídia juntam o dinheirinho do leitor agradecido ao dinheirão do anunciante e podem pagar pelos seus prédios imponentes e pelo bônus dos seus executivos.

É isso jornalismo? É o trabalho de emoldurar anúncios com informação útil e agradável?
Se é, má notícia. Embora tudo hoje pareça um mar de rosas neste Brasilzão em crescimento, e os empresários de mídia estejam faturando uma nota com a ascensão da classe média, há nuvens bem negras no horizonte. E elas prenunciam uma tempestade tão terrível como a que já está assolando os países ricos, onde jornais estão morrendo como moscas.

Num mundo em que informação é excessiva, está ficando difícil cobrar por ela, ainda mais quando se trata de informação industrialmente produzida: em larga escala, padronizada. Num mundo no qual o consumidor está perdendo a ingenuidade e pode filtrar informação, está ficando difícil convencer os anunciantes de que basta esconder o anúncio dele dentro da minhoca jornalística para fisgar clientes. Se essas duas dificuldades não forem resolvidas, bye bye publishing: afinal, o dinheiro da audiência e o dinheiro do anunciante são suas duas únicas fontes de receita.

É a morte do jornalismo então?
Não. É, talvez, a morte da indústria que, ao longo do último século, sustentou o jornalismo. Rest in peace, publishing. Deixará saudades.
Acontece que, enquanto o publishing desmorona, vão surgir milhões e milhões de oportunidades. Quando grandes indústrias que fazem serviços relevantes desabam, abrem espaço para gente inovadora propondo coisas diferentes. Estamos entrando numa época de experimentação, de invenção, de novidades.

Até por isso, resolvi sair da grande mídia. Depois de 10 anos na Editora Abril, hoje faço expediente numa empresinha pequena chamada Webcitizen, cujo objetivo singelo é transformar o mundo usando informação. (Se quiser conhecer alguns dos nossos projetos, você pode encontrá-los na web: www.votenaweb.com.br, www.issonaoenormal.com.br, www.tedxsaopaulo.com.br)

Trabalhar aqui do lado de fora da grande mídia é bem diferente de trabalhar lá dentro. Agora que minha atividade não tem mais o abrigo de uma indústria, a luta ficou mais dura. Perdi uns privilégios – acesso fácil a entrevistados com a simples menção do nome da publicação, por exemplo. Agora, a cada projeto novo que inventamos, preciso convencer os entrevistados de que somos sérios, de que sabemos o que estamos fazendo, de que vale a pena gastar tempo conosco.

Outro privilégio perdido é o acesso fácil ao leitor. Como ele já tinha uma relação com a revista onde eu trabalhava, estava sempre disposto a me ouvir. Qualquer frasezinha que eu escrevesse lá ganhava automaticamente uma audiência de centenas de milhares. Agora, aqui fora, eu sou uma voz entre milhões na cacofonia da internet. Se o que eu escrevo é relevante, maravilha. Se não, será solenemente ignorado.

Essa experiência nova me faz pensar bastante sobre a pergunta que coloquei no título deste texto: o que é jornalismo?
Jornalismo não é apenas a atividade de uma indústria.
Jornalismo é uma atitude: é ser curioso diante do mundo, é ser humilde para fazer perguntas e é ser transparente na divulgação da informação, revelando ao máximo todos os interesses envolvidos.

Eu não sei como vai ser o futuro do jornalismo. Na verdade, em nem sei mais o que é jornalismo: essa palavra já não significa quase nada para mim. Eu não sei se blogueiros amadores são mais ou menos jornalistas do que repórteres profissionais que não fazem nada além de reproduzir press-releases. Eu não sei se a palavra "jornalismo" será usada daqui a 10 anos. Eu não sei se todos os jornais do mundo vão falir ou se alguns vão se reinventar a tempo.

Eu não sei se o modelo de negócios das grandes empresas de mídia vai ser suficiente para sustentar os prédios imponentes e os bônus dos executivos.
Mas de uma coisa eu sei: continuaremos precisando de gente que tenha a atitude de um jornalista.
Se eu fosse dar um conselho só, seria esse: concentre-se na atitude, não no modelo de negócios.



* Dênis Russo é jornalista.
Trabalhou como Diretor de Redação da revista Superinteressante e esteve à frente de projetos especiais da Editora Abril. Apesar de ser “do impresso”, como costuma dizer, herdou do convívio com os cibernéticos do Vale do Silício mais do que a mania de dominar o mundo. Hoje é Diretor de Conteúdo da WebCitizen, empresa que propõe estimular o engajamento cívico e aproximar cidadãos entre si e de seus governos por meio da cultura digital.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Muito além do papel e da tinta

www.jornalismodigital.org


por
André Deak*

Rodolfo Walsh, Ryszard Kapuściński, Joel Silveira, Gay Talese e Truman Capote que me desculpem, mas novo jornalismo mesmo é outra coisa. Usar as ferramentas da literatura foi uma grande sacada – na década de 60. Hoje, quase 50 anos depois das primeiras reportagens literárias, o new journalism ainda causa fetiche nas universidades. Mas existe uma nova fronteira à frente, com infinitas boas ferramentas para contar histórias, muitas delas ainda nem sequer descobertas. Estamos falando das fronteiras do digital.

Alguns dirão que jornalismo é jornalismo, como sempre foi, o bom e velho jornalismo, e que o resto é firula. Acontece que não é bem assim. Primeiro porque, jornalismo, como conhecemos hoje, com regras éticas, existe mesmo só há algumas décadas. No Brasil, o código de ética da profissão é da década de 80. E se voltarmos um pouco antes, ainda, lembremos que existia o sujeito que saía pra rua pra buscar as histórias – o repórter – e o sujeito que ficava na redação, escrevendo em bom português, o redator. Repórter não precisava necessariamente saber português.

Não é de hoje, portanto, que a função dos jornalistas se altera. Com a transformação dos átomos em bits, as coisas ficam mais complexas. Vemos de perto essa transição: repórteres multimídia, convergências, novas narrativas. Uma vez que a habilidade de tirar fotos num celular, escrever em 140 caracteres, filmar e editar vídeos é algo que uma criança já faz, é difícil imaginar que isso não será um pré-requisito quando essas crianças estiverem chefiando uma redação. E isso pode ser encarado de duas maneiras.

Uma delas é considerar isso um problema; quem pensa assim viverá como viveram os jornalistas nas últimas décadas – poderá se tornar muito bom em uma especialidade, desenvolver habilidades de reportagem ou edição (no texto, rádio ou TV), seguir uma carreira monomídia.

Outro jeito é ver a oportunidade. Os que enxergam assim poderão fazer tudo o que o sujeito acima faz, mas também terão a chance de criar um novo jeito de fazer jornalismo. Reinventar o jornalismo. Usar ferramentas de outros campos, fundir as mídias, experimentar a interatividade, o poder das redes e da colaboração. Criar algo que nunca existiu. Uma nova linguagem. Um novo jornalismo. Ninguém sabe, ainda, o que será isso. Os caminhos não estão traçados.

Andrew DeVigal, Adrian Holovaty, Brian Storm, Felipe Lloreda e Alberto Cairo são alguns dos que praticam o melhor deste novo novo jornalismo. Não são nomes tão conhecidos. Talvez porque não haja mais espaço para um Talese ou um Capote – meia dúzia de nomes que reinventaram o jornalismo. Ou talvez porque, agora, todos nós possamos fazer isso.


* André Deak é Diretor da FLi Multimídia, jornalista, trabalha há mais de 10 anos com jornalismo online. Realizou reportagens de quase todos os países da América do Sul e da Europa ocidental. Co-organizador do livro Vozes da Democracia (2007), da ONG Intervozes. Foi editor executivo multimídia durante o processo de reformulação da Agência Brasil, até 2007. No ano seguinte, gerente de comunicação da CPFL Cultura. Freelancer para as revistas Rolling Stone, Carta Capital, Caros Amigos, Educação, Revista Fórum e outras. Prêmio Vladimir Herzog 2008, categoria internet. Ministra cursos e palestras sobre jornalismo online e narrativas interativas (USP, UFSC, PUC-SP, Cásper Líbero, Comunique-se, Diários Associados, Abraji, Editora Abril, entre outros). Mestrando da ECA-USP na área interfaces sociais da comunicação.

domingo, 27 de junho de 2010

Ajudar pode ser uma carreira – bem lucrativa

TEDx São Paulo


por
Helder Araújo


Na indústria da informação, o sucesso é maior quando se cria oportunidades para o sucesso dos outros.

Duas das maiores empresas de tecnologia, Microsoft e Apple, só alcançaram resultados extraordinários quando possibilitaram melhores negócios para outras pessoas. Bill Gates viu sua empresa faturar bilhões quando seu pacote Office permitiu que pequenas e médias empresas organizassem e trocassem melhor as suas informações, e isso o ajudou a se tornar o homem mais rico do mundo. Já a empresa de Steve Jobs decolou quando construiu uma plataforma online para venda de software de outros desenvolvedores. O sucesso de Jobs foi tão grande que dados recentes, de junho de 2010, apontam que o mesmo já distribuiu cerca de US$ 1Bilhão através do App Store, um modelo de negócios chamado “revenue share”, que divide os lucros das vendas da Applestore.

Os exemplos não param de surgir. Dois dos maiores sites da internet possibilitaram o surgimento de inúmeras outras empresas baseadas em seus produtos. O Facebook hoje funciona como uma plataforma para aplicativos sociais programados por outras empresas. Entre elas a Zynga, produtora dos jogos mafiawars e farmville, que conseguiu 240 milhões de usuários diários e US$200 milhões ainda no primeiro ano. A mesma abertura acontece no Twitter, que já é tão visitado através de aplicativos programados por terceiros quanto pelo seu próprio site. Twitterific, Tweetdeck e Tweetie contrariam os mais conservadores que ainda acreditam que o acesso ao site é o mais importante em uma estratégia web. Fica claro que existe uma cultura de cooperação na internet e que várias empresas estão ajudando umas as outras e com isso alcançam o seu próprio sucesso.

Esse jeito de pensar também se espalha pelo jornalismo. Existem por aí iniciativas que criam conteúdo que potencializam mensagens de outras pessoas ao mesmo tempo que promovem aquilo em que o jornalista acredita. Dois grandes exemplos chamam a atenção. O primeiro deles é o TED Conferences, uma serie de eventos sobre Tecnologia, Entrenimento e Design que acontece desde 1984. Chris Anderson, é seu curador desde 2001 quando abandonou a direção da Future Publishing, onde foi responsável por sucessos editoriais como Business 2.0 e IGN.com entre outras 130 revistas. Mas fama e dinheiro à parte, foi à frente do TED, mantido por sua fundação sem fins lucrativos, que conseguiu realizar seu sonho de espalhar boas práticas dando espaço para pessoas contarem suas idéias para o mundo. Seus videos já foram vistos mais de 300 milhões de vezes e traduzidos para mais de 75 idiomas. O TED estimula através de histórias, através exemplos.

Outro bom exemplo é o da Good Magazine, uma revista que não só sobrevive no mais instável mercado para o jornalismo, o dos Estados Unidos, como cresce e é lucrativa. Posicionada como uma revista para quem “dá a mínima”, que trabalha com o conceito de comunidade, em que os leitores se organizam para promover mudanças localmente. Entre as suas maiores façanhas, conseguiu convencer a Pepsi a direcionar US$ 20 milhões por ano da publicidade mais cara do mundo, dos intervalos do jogo final da liga de futebol americano (Super Bowl), para realizar idéias que possam melhorar a vida em comunidades. Qualquer pessoa pode participar e concorrer a prêmios de 50 a 250 mil dólares para realizar seus sonhos de ajudar os outros.

Bem, se seu sonho é ser jornalista, esta é uma realidade (trabalhar ajudando outros a viabilizarem suas idéias) que vale a pena viver.


*Helder Araújo é um empreendedor com foco em educação informal. Fundador da Webcitizen e responsável pelo primeiro TEDx no Brasil, hoje atua como CEO do Busk.com, uma rede social Brasileira de notícias, que possibilita as pessoas encontrar e colecionar conteúdo e recomendá-lo a seus amigos. Helder acredita que é com a troca de informação que nos aproximamos e, consequentemente, aprendemos.

Telejornalismo e internet


Alexandre Pettilo em ação

por
Alexandre Petillo*


A gente precisa usar a internet como aliada. Falar é fácil. Mas é isso que eu ouço há, sei lá, pelo menos 13 anos. E nessa mais de meia década não tive nenhuma idéia revolucionária ou pelo menos razoavelmente boa e transformadora capaz de aliar o que eu estivesse fazendo no momento com a rede – e ainda conseguir ser ao mesmo tempo novidadeiro e rentável. O que me consola é que poucos realmente conseguiram.

Hoje eu trabalho com telejornalismo. E, confesso, ainda não convivemos com a sombra e a pressão constante que passa quem faz jornalismo impresso – aquela velha história, “ah, a internet vai acabar com os jornais e revistas, o que vamos fazer?”. Não, não acho que a TV vai acabar e todo mundo só vai assistir as coisas pelo computador. A TV é o meio de comunicação de massa e vai continuar assim por um bom tempo. Ao menos no Brasil. É sério. Se existe um dos poucos signos de comunicação capaz de unir um sujeito do interior do Rio Grande do Sul com um camarada do sertão do Mato Grosso é que ambos sabem quais foram as principais notícias do Jornal Nacional. E provavelmente ambos devem gostar das narrações do Galvão Bueno.

Por enquanto a principal transformação do telejornalismo na internet é a nova maneira como os jornais chegam a um novo tipo de telespectador – que pode vê-lo a qualquer hora, acessar pelo notebook, celular, etc. No modo de fazer, a coisa está mais ou menos do mesmo jeito. Claro que tem alguns gols. Contar com a participação do telespectador que envia fotos, vídeos e notícias para a redação em muito ajuda na cobertura. Você pode ter uma dimensão maior do fato antes da equipe de reportagem chegar ao lugar. O que te permite pensar e analisar melhor que tipo de abordagem você pode dar. Fora isso, no geral, no modo de fazer, está tudo meio como sempre foi.

Mas a vantagem disso tudo é que você pode testar. E dei uns chutes aqui e ali. Faço a direção de um núcleo de programas na Rede Vanguarda, afiliada Globo no Vale do Paraíba, Litoral Norte, Serra da Mantiqueira e Região Bragantina. Uma área de cobertura importante do Estado de São Paulo. Para completar a Rede Vanguarda é do Boni, um dos inventores e feiticeiro da televisão no Brasil. Por aqui, trazer o novo é fundamental. E a gente tenta.

No Vanguarda Mix, programa dedicado ao público jovem, a gente persegue a convergência com a internet o tempo todo. Logo que o Twitter se estabeleceu, fizemos um programa totalmente inspirado na ferramenta. As 18 horas de uma segunda-feira, os dois apresentadores posicionaram-se na frente da emissora e postaram no Twitter: “a gente vai fazer o que o primeiro mandar”. Daí em diante ficamos as próximas 14 horas fazendo tudo que era sugerido pelo Twitter. A gente seguiu os nossos seguidores. A conta do programa no Twitter ganhou, nessa noite, mais de três mil seguidores. Entre as pautas sugeridas nessas horas sob o domínio do Twitter, E o programa foi um sucesso de audiência – ganhou destaque até na coluna de TV da “Folha de S. Paulo”. Uma boa idéia, que funcionaria ainda melhor numa grande cidade como São Paulo e Rio de Janeiro – mas altamente trabalhosa. Até agora só fizemos uma vez. Mas poderia render um programa regular.

Dentro do Mix também fizemos uma “seita virtual”. Eu li que tinha um sujeito que criou uma seita onde as pessoas mandavam fotos com a cabeça dentro de uma geladeira. E o cara publicava essas fotos em um blog. Decidimos criar a nossa “seita virtual”. Criamos um monte de poses diferentes, que as pessoas mandavam. Usamos as fotos no programa e também no blog. Outro grande sucesso. O pessoal assistia para se ver. E depois entrava no blog para se ver. Uma das situações criadas, inclusive, incitava a rapaziada a tirar fotos ridículas com os sempre sérios apresentadores dos telejornais da casa. Ficou engraçado, quebrou um pouco o gelo.

A internet foi fundamental também para a gente conhecer que tipo de público assiste um quadro sobre futebol que eu apresento, chamado “Boteco Vanguarda”. A mesa redonda vai ao ar dentro do programa “Madrugada Vanguarda”, que fala sobre música, cinema, comportamento e vara as noites de sexta, após o programa do Jô Soares. Como a pesquisa não pega esse horário, a gente não sabia quem nos via – e se ao menos tinha alguém que via. De sopetão, sem avisar nada pra ninguém, sorteamos um livro através do blog do quadro. Assim: quem estiver vendo agora o Boteco e entrar no blog vai ganhar um livro. Já se passava das duas da madrugada quando soltei esse anúncio. E centenas de pessoas participaram. Bateu recorde de acessos. A partir dali, a relação programa-blog ficou mais estreita e um não vive sem o outro. E, pelo horário que o quadro vai ao ar, o número da audiência pela TV e pela net deve ser bem parecido. Hoje o blog é uma das páginas mais acessadas do portal de notícias da emissora. E o quadro cresceu muito, virou carro-chefe do programa. Acho que não teria o sucesso que tem sem a ajuda da internet.

Mas ainda falta aquele chute forte e colocado no ângulo. Como assim falei eu mesmo logo acima, falta algo novidadeiro, revolucionário e rentável. Assim que eu descobrir, prometo que conto. Você jovem jornalista, que veio até aqui em busca de dicas, ficou com algumas histórias. Eu sei que te decepcionei. Mas é aí que está a graça. A ferramenta é a mesma para mim e para você. O negócio é continuar chutando. Hoje, por exemplo, é domingo. Acabei de ler no “Estadão” que amanhã, também conhecida como segunda, o caderno “Link” sairá em 3D. Idéia do velho amigo Alexandre Matias, sempre a frente. Estou morrendo de curiosidade. Jornal em 3D, só podia ser coisa do Matias. O negócio é esse. Nunca tivemos tantas ferramentas à mão para se fazer absurdos criativos. Tá com você.


* ALEXANDRE PETILLO é jornalista. Na verdade, queria ser o Casagrande, mas acabou no jornalismo no lendário Notícias Populares. Criou a revista Zero, escreveu para a Folha, Estadão, Playboy, Época, Superinteressante e Placar. Editou o livro Noite passada um disco salvou minha vida, em que 70 músicos e jornalistas falam de seus discos favoritos. É diretor do núcleo de programas da Rede Vanguarda, afiliada Globo no Vale do Paraíba, em que também apresenta o Boteco Vanguarda, mesa-redonda sobre futebol, além de fazer reportagens para o Globo Esporte.

Marketing com algo a mais

Campanha do Estadão para atingir leitores de blogs



por
Armindo Ferreira *



Eu entrei na faculdade de jornalismo em 1998. Na época trabalhava com informática, mas já me via no futuro trabalhando com pessoas e não com máquinas. Aprendi a mexer com computadores com 10 anos de idade, programando em Basic. De forma que poderia naturalmente ter ido fazer, por exemplo, Ciências da Computação.
Mas como passei muito tempo viajando em uma atividade social jovem que fiz parte, aprendi a gostar de pessoas e das histórias das pessoas. Histórias de vida, sabe?

Então entre o computador e o jornalismo, lá fui eu a me intrometer a entender de lead, redação, pauta e todo o resto. Acabei sendo o estudante de jornalismo que mexia com informática. Foi assim que consegui meu primeiro estágio numa empresa ponto com em 2000. Era o Evanguarda.com da afiliada da Globo/Vanguarda, em São José dos Campos/SP. Depois acabei passando do eletrônico para redação da TV, onde fiquei por mais de sete anos pulando de afiliada em afiliada pelo interior do Estado de São Paulo, e enfim no SBT onde encerrei por assim dizer minha carreira de jornalista de TV.

Eu lembro que estava um dia na redação e minha editora-chefe falou que eu tinha que editar uma reportagem sobre uma mega operação da Polícia Federal, e que teria que colocar imagens e informações de sete estados em um único VT de 1:40 com cabeça e passagem. Depois daquele dia me dei conta que algo estava errado. Que não dava pra viver contando histórias assim. Nesse meio tempo estava terminando meu MBA em Marketing e achei que finalmente tinha descoberto minha praia.

Profissionais de marketing precisam ser analíticos, ter boas sacadas, entender do comportamento humano e de tendências, ter sangue frio, visão global das coisas. Captou a mensagem? São praticamente os mesmos atributos que um bom jornalista deve ter, mas com conhecimentos extras sobre como o mercado se comporta e outras técnicas mais.

De forma que lá estava eu no meio do marketing, mas com um diferencial enorme: eu já era jornalista. Hoje eu tenho a mesma motivação que eu tinha por um texto de telejornalismo bem escrito e com imagens lindas, ao ver a vitrine de um cliente bem arrumada e os resultados no caixa aumentando cada vez. Converso com clientes, vendedores, amigos publicitários, meus alunos na faculdade e conheço muito mais histórias de vida do que se estivesse ainda numa redação.

E não caia nessa de que o marketing é do mal, que faz as pessoas consumirem mais do que deviam. Como em toda profissão, inclua aí o jornalismo, existem bons e maus profissionais. E na verdade o marketing garante o emprego de muita gente, mas esse papo é pra outro dia.
Mas vale ressaltar que no mundo de hoje o jornalista não precisa necesariamente de um veículo de comunicação para trabalhar, isso porque pode ser dono do seu próprio meio, seja através ele um blog, um site ou sua página do Twitter.E entender o bê-a-bá do marketing é fundamental, seja para promover seu trabalho quanto para criar não só uma forma de expressar como também ser remunerado por conta disso. Estudar seu mercado, entender o leitor e as formas de patrocínio, serão habilidades fundamentais para o jornalista-mídia-empreendedor, ou pra abreviar o jornalista 3.0.

Foi assim que eu juntei meus conhecimentos de informática, de jornalismo e marketing e montei uma empresa que ajuda outras empresas a se comunicarem melhor usando estas três ferramentas. Então como se diz no Twitter hoje, #ficadica e vá buscar seu diferencial no mercado.


* Armindo Ferreira é jornalista, proprietário da agência Cruz e Ferreira e organizador do SMVP

Comunicação em todos os sentidos


por
Heitor Botan*


"O cliente pode ter o carro da cor que quiser, contanto que seja preto"


A frase é de Henry Ford. A justificativa era de que a produção de carros unicamente pretos era significativa para a alta produtividade da linha de produção da Ford, no começo do século XX. E o contexto perpetuou-se por muitos anos na relação entre empresa e cliente.


Por décadas, o consumidor sempre teve pouca participação na comunicação com as empresas ou instituições do setor público. As mensagens sempre circulavam em uma via de mão única: de um lado, organizações "despejando" informações. Do outro, o público recebendo estes dados, até mesmo aqueles que não o interessava. E a recíproca não era verdadeira.

Nos seus projetos de comunicação com clientes e colaboradores, as empresas se apoiavam nos pilares da mídia tradicional, instituída a produzir conteúdo que provocasse pouca - ou nenhuma interatividade. Por quantos anos redigimos nossas matérias seguindo o conceito da pirâmide invertida? Ou seja: determinávamos ao leitor até o modo como ele iria conduzir a própria leitura e o ponto em que os fatos deixavam de ser imprescindíveis para a compreensão do texto.


O mesmo vale para os veículos eletrônicos: editores escolhem como as reportagens serão apresentadas ao longo de um programa, e essa ordem terá que ser seguida pelo leitor. Caso esse queira se rebelar, pouco poderá fazer. Desligar o aparelho ou mudar de canal são suas opções.

Nesse monólogo construído pela mídia, que as empresas adotaram para seus projetos de comunicação, a organização fala para uma "plateia", que pouco pode fazer para interagir com as mensagens direcionadas para si própria. Que essa é uma posição confortável para as empresas, não se pode negar. Afinal, por muitos anos elas tiveram como princípio investir esforços naquilo que dá retorno financeiro (produção, processos administrativos), em detrimento da comunicação com o cliente.

A internet não funciona assim. Nas palavras do professor J. B. Pinho, no livro Relações Públicas na internet, o público tem latente a expectativa de participar, de interagir. E o conteúdo on-line que ofereça um padrão mínimo de interação tem pouco valor para o usuário. A internet transformou o monólogo em um diálogo. Uma conversa aberta e disponível a todos aqueles que queiram participar.

E essa transformação da comunicação ocorreu simultâneamente a uma sequência de transformações sociais. As pessoas não se acomodam mais à situação de plateia, e seguem para a conversa, mesmo que elas próprias tenham que "puxar o assunto". A sociedade não espera mais que a empresa se manifeste, para só depois poder demonstrar sua opinião. No Brasil, esta situação ficou clara, principalmente, após a maturidade do Código de Defesa do Consumidor.

As empresas, então, tiveram que se adaptar a este novo perfil de comunicação, em que um "um para todos" deu lugar ao "todos para todos". E este processo não foi fácil. Afinal, deixar a posição de emissor único para se colocar na situação de um emissor e receptor, ao mesmo tempo, demandou uma revisão de conceitos, valores e ideais.

Neste processo, os profissionais de comunicação, alinhados e atualizados quanto a todas as transformações sociais e midiáticas que ocorriam, foram fundamentais para conduzir organizações de um plano unidirecional a um plano bidirecional de comunicação. Foram os profissionais de comunicação que tiraram as empresas da pista de mão única para levá-las às pistas com quantas vias forem necessárias para atender a expectativa dos clientes.

Assim, surgiram os blogs corporativos: ferramentas que permitem a comunicação direta, bidirecional e com resposta instantânea, segundo definição da Carol Terra. Os blogs corporativos permitem que clientes e empresas participem da mesma conversa, podendo esclarecer dúvidas, antecipar lançamentos para se obter avaliações, reforçar valores da organização e posicionar sua marca junto ao público de interesse.

Além disso, o usuário da internet privilegia decisões de empresas que buscam estabelecer essa relação bidirecional na mídia digital. Basta ver o exemplo da Petrobrás, que com o site Fatos & Dados conseguiu, no início, gerar polêmica com a imprensa, mas conquistar seguidores que apoiavam o fim da intermediação entre organizações públicas e jornalistas para gerar o conteúdo levado aos leitores.

Para se obter sucesso com blogs corporativos, os conceitos da comunicação bidirecional devem estar claros em toda e qualquer comunicação com clientes, seja esta começada pela empresa ou pelo público. Por isso, todo blog corporativo deve ter caráter autoral, identificando quem é que escreve, de quem é essa opinião, além de ter resposta rápida aos questionamentos (não adianta demorar para responder aquilo que um cliente postou) e permitir ao máximo a participação e colaboração do público.

Atualmente, partir para o diálogo junto ao internauta, por meio de redes sociais, blogs e fóruns, já é um caminho sem volta. Independente de sua empresa querer ou não estar na web ou nas redes sociais digitais, o usuário comum irá te colocar de alguma forma, seja para enaltecer o seu produto, ou para criticá-lo. Mais comum do que as comunidades "eu amo a marca X", são as manifestações "eu odeio a marca X". Não desperte a ira do cliente na internet. É melhor deixar claro que ele pode ter o produto na cor que ele quiser.


*Heitor Botan é jornalista, representante de comunicação do SENAC Taubaté e owner do
Focas em AI .

sexta-feira, 25 de junho de 2010

BarCamp e o jornalismo: um novo jeito de se produzir notícia?

Barcamp em Orlando
Foto por Hyku


por
Cleyton Torres*




BarCamp e o jornalismo: um novo jeito de se produzir notícia?

BarCamp em plataforma Open Space funciona de maneira muito simples, produtiva e sem a necessidade de muitas regras especificas para o seu desempenho. O método de organização é o mais simplório possível: proponha as ideias a serem debatidas, trace as grades e horários, rabisque os formatos e apresente. Isso mesmo, apresente. Uma das poucas regras da BarCamp é a de que todos os integrantes devem passar por todas as etapas juntos, discutindo, analisando, discordando e mostrado qual contribuição podem dar. Tudo isso junto e misturado. Tudo isso com um único propósito: colaboração.

Qual o paralelo que podemos traçar entre os cenários da BarCamp e o jornalismo? Simples: o jornalismo contemporâneo caminha para uma espécie de estruturação aberta, colaborativa, dinâmica e sem a tradicional hierarquização das redações dos grandes meios comunicativos comandando tudo por de trás das cortinas.

Hoje todos produzem para todos, e isso forçosamente faz com que o jornalismo precise se reinventar e se reestruturar perante os novos panoramas que lhe são apresentados. O jornalismo nunca foi acostumado com o modelo horizontal de produção de notícias. Aliás, nunca se acostumará só com esse modelo.

Até mesmo na BarCamp, onde a estrutura se baseia no mais não vertical possível, a figura do facilitador é essencial para o encaminhamento do processo. Muitos integrantes ao se inscreverem no projeto de “desconferência” esperam orientações de como agir e atuar, pelo menos em um primeiro momento. Só com o tempo é que adquirem a confiança necessária para exporem suas visões e contribuições de não especialistas para com os outros membros relacionados.

No caso do jornalismo, esse facilitador moderno se funde na figura do gestor informacional, pois ao contrário dos iPads e jornais impressos que você pode ter ou comprar, a ciência ainda não conseguiu provar a fronteira limítrofe do homem para a aquisição de conhecimento. Porém, provou que, sim, mesmo que vivamos em uma era denominada “da informação”, todo ser humano necessita da espécie de um mediador (facilitador, em outras línguas) para a continuidade do gerenciamento da informação e, com isso, a própria continuidade de uma sociedade democrática.

O jornalismo na plataforma BarCamp se baseia na construção não convencional da informação. Jornalista é jornalista, e isso o difere de maneira colossal dos outros profissionais de comunicação. Seu papel é o de mediador da sociedade, difusor da informação e facilitador da compreensão, só que agora se vê na necessidade de um conciliamento com centenas de milhares de novos integrantes, em uma estrutura de traços característicos do Open Space, analisando, palpitando, discutindo, delineando grades e horários, discordando e, principalmente, apresentando seus conteúdos de não especialistas.

E é esse o exato ponto com que o jornalismo atual está tendo sua maior problemática: saber somar sua produção qualitativa com as apresentações quantitativas dos outros membros da “BarCamp jornalística”. Produzir quantitativamente sabendo conciliar a qualidade apresentada pelos consumidores de informação. No novo modelo jornalístico, devem existir ideias e colaboração pautadas com as visões do gestor da informação, mas com os olhares daqueles que também ajudaram a construir as grades.

Hoje cada internauta tem um mouse na mão, e isso muda tudo. Mudam as relações imprensa e leitores, mídia e telespectadores. Cada pessoa é um membro em potencial para participar e discutir, propor e, talvez, apresentar ideias em um novo contexto de produção noticiosa. Na BarCamp difundida em 2005, nos EUA, e em 2006, no Brasil, os integrantes interagem e se informam em listas de discussão. Na “BarCamp jornalística” somente o bom senso é o limite, o resto fica por conta das redes sociais e portais jornalísticos.

Todo o processo de contato e gerenciamento pré-BarCamp é feito online, o que projeta uma luz de como o jornalismo pode agir no futuro. Colaboração e gerenciamento totalmente através da web, com múltiplos dedos e opiniões já são realidade. O que deve ser analisado e estudado é qual a maneira que possuíamos para reestruturarmos a nossa própria estrutura, provando que a revolução da comunicação digital não vai matar o jornalismo propriamente dito, mas sim o preconceito que a própria sociedade detinha com quem produzia notícia, ou seja, o jornalismo tradicional foi obrigado a reformular suas áreas não porque era ineficiente, mas porque, de uma vez por todas, a sociedade despertou novos hábitos e viu o quão fundamental é a sua participação direta na produção de conteúdo informacional e jornalístico. O mote, agora, é fazer parte não só dos resultados finais, mas participar, também, de todo o processo de criação.

BarCamp e jornalismo consistem na formulação de um novo conceito: o jornalismo comum morreu. O que temos hoje é a mais pura forma do jornalismo digital, o jornalismo que é feito através de recursos não analógicos para sua difusão em diversas plataformas e formatos de mídia, projetando um jornalismo essencialmente multimídia que nunca esteve tão aberto, não hierárquico e, principalmente, que nunca permaneceu tão online.


* Cleyton Torres é jornalista e blogueiro. Pós-graduando em História, também é pós-graduado em Comunicação, com ênfase em Assessoria de Imprensa, Gestão da Comunicação e Marketing. É pesquisador de novas tecnologias, web 2.0, comunicação, mídia e jornalismo digital. É editor do Blog Mídia8!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Jornalismo Colaborativo




Nesta quarta-feira a prestigiada jornalista Ana Brambilla, editora de Redes Sociais do Terra, aderiu ao projeto.

Brambilla, que também já lecionou na PUC RS e na Cásper Líbero, irá escrever sobre "Cultura Wiki e Jornalismo Colaborativo".

Blog da Ana : Libellus

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Publicando o joio




por
Rodolfo Araújo*


Recentemente escrevi sobre o fenômeno da Viralização da Violência destacando a forma como a mídia transforma verdadeiras barbaridades em acontecimentos perfeitamente banais, absolutamente cotidianos. Veículos tradicionais e programas de grande audiência exploram tragédias pessoais e dores coletivas, embalando-os para presente sem nenhum pudor, tampouco constrangimento.

Ao mesmo tempo, a proliferação de atrações desta natureza revela a crescente aceitação da sociedade por esta modalidade de entretenimento voltada para a espetacularização do mundo cão. Uma reação aparentemente normal, característica dos livres mercados contemporâneos, onde as corporações oferecem aquilo que o consumidor demanda, em quantidades e configurações compatíveis com o que a sociedade comporta. Assim como a padaria da sua esquina, as montadoras de automóveis e os traficantes de drogas.


Em Origin of Wealth: Evolution, Complexity, and the Radical Remaking of Economics (Harvard Business Press, 2007), Eric Beinhocker oferece um enfoque evolucionista ao modo como enxergamos a Economia. Este olhar macro funciona para analisar, também, partes dos sistemas econômicos como, por exemplo, a mídia. Segundo Beinhocker, movimentos evolucionistas passam por três estágios principais: inovação, seleção e replicação.

Dos primeiros grunhidos dos hominídeos nas savanas africanas, à prensa de Gutemberg e ao advento da Internet, a comunicação experimenta inovações não só nas Tecnologias Físicas mas também nas Sociais, tendo estas influenciado naquelas - e vice versa. Enquanto que algumas criações perecem pelo caminho, outras triunfam sendo escolhidas e repassadas às gerações posteriores. Na etapa seguinte, as novidades estabelecidas têm seu uso amplificado, copiado e imitado tornando-se, muitas vezes, o novo padrão. Um processo amplamente difundido e comumente conhecido na literatura corporativa como competição.

A superexposição da vida privada e a exploração dos sórdidos detalhes de crimes macabros, que ora preenchem a mídia, também são frutos de processo semelhante. Originados em inovações como Big Brother, a série Faces da Morte ou campeonatos de Vale-Tudo, a bisbilhotice e a glamurização da violência foram selecionados pelo fetiche popular em ter livre acesso aos detalhes audiovisuais da vida alheia, quer na alegria ou na tristeza - com especial preferência a esta última, contudo.

Tal como no enfoque evolucionista de Beinhocker, tais inovações foram apoiadas por novas Tecnologias Físicas - como a proliferação de câmeras digitais cada vez mais potentes, reduzidas e baratas e na facilidade de armazenamento, transmissão e difusão de dados - e Sociais - como a crescente aceitação de escândalos e a paulatina redução dos pudores sociais, exigindo bizarrices cada vez mais escabrosas.


Destacar comportamentos grotescos - seja um parricídio ou a devassidão do astro da moda - carrega consigo componentes de degradação social, na medida em que colocam tais ações dentro de nossas casas, com ares de acontecimentos banais, quase corriqueiros. Do mesmo modo que os jornais não publicam histórias de suicídios - para evitar a imitação - deveriam suprimir homicídios. Afinal, você não fica descrente ao saber que na maioria dos países os suicídios são mais frequentes que os homicídios? Provavelmente a maioria dos massacres perpetrados por franco atiradores não aconteceria se isso não fosse garantia de destaque nos jornais, onde seus perpetradores buscam sua mórbida fama póstuma.


Antes que o leitor se apresse em identificar traços de censura no meu texto, alerto que a sociedade é baseada em torno de restrições a direitos individuais em nome de benefícios coletivos. A liberdade - especialmente a de expressão - serve ao interesse público, garantindo o acesso a informações relevantes principalmente no acompanhamento e controle das instituições públicas, no sentido de impor limites ao poder. Isso nada tem a ver com o direito de os paparazzi trabalharem, ou com fotos contrabandeadas do corpo inerte da menina Nardoni. Qual o interesse público na barriga do Ronaldo ou nos hematomas de uma criança morta?

Assim como uma economia de mercado seleciona aquilo que chega ao seu alcance e permite, por assim dizer, que a mídia se transforme neste monstrengo surreal, cabe a ela também impor seus limites e rechaçar aquilo que lhe é prejudicial, independente do horizonte temporal analisado - seja pão francês, automóveis ou cocaína.


Mas ao mesmo tempo em que há leis institucionais, sociais e de mercado para regular o consumo, isto não exime de culpa o lado responsável pela sua produção. O papel do jornalista e do editor torna-se, portanto, fundamental neste processo de desinfetar uma mídia sem limites. Embora eles respondam aos incentivos do seu setor - em última instância, a audiência - devem obedecer também a seus instintos e valores. Do contrário, correm o risco de ratificar a célebre frase de Adlai Stevenson: "Um editor de jornal é alguém que separa o joio do trigo - e imprime o joio".


* Rodolfo Araújo é Mestre em Administração pela PUC-RJ; Pós Graduado em TI pela FGV-RJ; Bacharel em Comunicação Social pela UFRJ. Carioca morando em São Paulo há quatro anos.Sempre buscando aprender e ter novos pontos-de-vista sobre as coisas do dia-a-dia.Escreve na Você SA e no Não Posso Evitar