sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Fotografia Digital*

Imagem do Flickr do Fotógrafo Urbano


por

Renato Targa¹


A definição do que é fotografia digital muito simples: um tipo de fotografia que usa tecnologia digital para registrar imagens, em contraposição à fotografia tradicional, baseada em um processo químico. O princípio físico da câmera fotográfica foi desenvolvido na Idade Média e já estava pronto desde o Renascimento, quando era explorada pelos ar-
tistas. A forma de registrar as imagens era desenhando, pintando ou talhando por cima da imagem projetada em uma superfície. A fotografia, que é um registro técnico dessa imagem projetada, só existiu a partir do momento em que algum tipo de suporte que gravasse a imagem automaticamente fosse criado. A primeira solução viável, no século 19, foi a descoberta de materiais sensíveis à luz que deveriam ser expostos e depois submetidos a um processo químico de revelação. E essa invenção transformou o olhar da humanidade sobre o mundo e sobre ela mesma.
                         
Atualmente, esse processo de revelação é que vem sendo substituído pelo processo digital de captura das imagens em seus mais diferentes usos. A indústria produziu vários tamanhos e formatos de filme para usos distintos, que representam diferentes resoluções. O mais popular e barato deles, o 35mm, é o que vem mais rapidamente cedendo
espaço para a fotografia digital. Já é mais barato fotografar com uma câmera digital, mesmo ela sendo bem mais cara que a câmera tradicional, por eliminar os custos de material e revelação. Também já existem boas alternativas para os formatos médios, bastante populares na fotografia de estúdio e publicidade. Porém, em sistemas de câmeras para
chapas de filme de grande formato, mais usadas em fotografia de natureza e arte, ainda não há opções digitais viáveis, por exemplo.

A fotografia sempre esteve relacionada a um registro de memória, para congelar um intervalo de tempo algo que pode ser visto (claro que há variações, em que a câmera grava um intervalo maior ou menor do que o olho normalmente registra, criando efeitos difíceis ou impossíveis de serem vistos).
                         
Fotografar tornou-se um hábito na sociedade, mais forte em algumas culturas do que em outras, mas presente em quase todas. Tanto pelo aspecto de preservação da memória, ou gatilho dela, pelas lembranças que a fotografia evoca, como objeto colecionável e que pode ser compartilhado. Quem nunca quis mostrar para alguém suas fotos? E também tornou-se uma forma de lazer bastante popular, assim como o turismo, que virou indústria importante na cultura contemporânea. Como diz Susan Sontag, em “Sobre a Fotografia” (“On Photography ”, em inglês):

Os turistas sentem-se compelidos a pôr a câmera entre sim mesmos e  tudo de notável que encontram. Inseguros sobre suas reações, tiram uma foto. Isso dá forma à experiência: pare, tire uma foto e vá em frente. O método atrai           especialmente pessoas submetidas a uma ética cruel de trabalho —alemães, japoneses e americanos. Usar uma câmera atenua a angústia que pessoas submetidas ao imperativo do trabalho sentem por não trabalhar enquanto estão de férias, ocasião em que deveriam divertir-se.

Pessoalmente, fotografar é um prazer, uma paixão. É uma forma de unir racionalidade e criatividade. Uma atividade em que eu ativo os dois lados do cérebro, para lidar com critérios técnicos e artísticos ao mesmo tempo. É a junção do olho com a mão, comandados pelo cérebro, trabalhando em sintonia para produzir uma imagem. Mais espontâneo quando comandado pelo olho, mais cerebral quando parte de um projeto, deuma série.

Usar uma câmera digital me permitiu duas coisas que alimentaram tanto o meu aprendizado como meu prazer em fotografar: o baixo custo por clique e o resultado instantâneo. Por ser conferido na hora, avaliando a imagem gerada e o histograma de luminosidade, eu consigo testar técnicas e efeitos na hora, refinando a exposição final, para chegar mais próximo da imagem que eu tenho em mente ao fotografar. Antes da fotografia digital, muitos fotógrafos usavam câmeras de revelação instantânea, como a Polaroid, como rascunho do trabalho que iriam produzir, para testar se a luz estaria adequada, por exemplo. Com a fotografia digital, dois fenômenos ocorrem: primeiro é o volume, tiramos
muito mais fotos, guardamos mais fotos (e também perdemos mais fotos, com a falta de back-up e organização); segundo é a divulgação. Enviar fotos digitalmente para alguém, que são cópias idênticas e gratuitas dos arquivos, é muito simples, seja por e-mail, seja transferindo para um disco ótico, rígido ou pen drive, assim como é relativamente simples e normalmente gratuito publicá-las na web.
               
Com a edição digital das imagens, a famosa “photoshopada”, algumas questões éticas do uso da fotografia surgem em alguns círculos, como o jornalismo, em que a manipulação é mal vista. Antes a fotografia era confiável, o fotógrafo é que poderia mentir. Porém, com o avanço tecnológico, a geração de arquivos RAW como se fossem exposições de filme não reveladas, que precisam de algum tipo de pós-processamento, seja na própria câmera, seja no computador, levam a uma contradição: a tendência é assumir que a foto pode ser uma mentira, mas a reputação do fotógrafo é que vai dizer se ela é confiável ou não, um questionamento que já ocorre em toda a representação interpretativa da realidade: sejam textos, pinturas ou desenhos. E o vídeo, que é uma sequência de fotos exibidas em uma frequência estabelecida, também migra para o mundo digital e passa pelo mesmo processo.


* Originalmente publicado no e-book “Para Entender a Internet”.


¹ Renato Targa estudou engenharia por uns bons anos, mas formou-se em jornalismo. É
um dos funcionários criadores do UOL, empresa em que trabalha há 13 anos, onde atuou
nas mais diversas áreas: de jornalismo a análise de audiência passando, principalmente,
por programação de interfaces. Atualmente faz mestrado na ECA-USP pesquisando o
papel da fotografia em redes sociais online.



Twitter: @renatotarga


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Jornalismo Colaborativo*

Escolha suas ferramentas


por
Ana Brambilla¹


“Every citizen is a reporter.” Com esse slogan, o noticiário sul-coreano OhmyNews foi concebido em fevereiro de 2000 como um divisor de águas no jornalismo digital. A quebra do paradigma do jornalista como “detentor do lugar de fala” ofereceu ao cidadão leigo (sem conhecimentos de jornalismo) toda a engrenagem jornalística para dar aval à sua história: redação com editores em Seul para apurar informações vindas do mundo todo e o aval de uma marca de imprensa transformariam um simples relato do acidente da
esquina em fato jornalístico.

Assim, o jornalismo colaborativo (open source, participativo, cidadão...) vem sendo adotado por mais e mais veículos (da grande mídia ou especialmente criados para este fim). Pesquisa do Biving Groups com sites de jornais americanos mostrou que, em 2008, 58% das marcas já abriram espaço para UGC (user generated content). Hoje há correntes fortes de jornalismo colaborativo no Chile, Estados Unidos, Espanha, França, Itália, para citar alguns. É possível encontrar iniciativas semelhantes no Sri Lanka, Nova Zelândia, Iraque, Filipinas e Israel. No Brasil, veículos que se consolidaram no modelo de mídia de massa (unidirecional, onde somente o jornalista fala e o público escuta) lançam seus “braços colaborativos”, a exemplo do Eu Repórter (O Globo), VC Repórter (Terra), Minha Notícia (iG), VCnoG1 (G1), Leitor Repórter (Zero Hora e Jornal do Brasil), Meu JC (Jornal do Commercio - PE).

Os tipos de conteúdo requisitados ao grande público e veiculados nestes espaços variam drasticamente: vão de fotos de casamento a denúncias de má administração pública. A falta de um modelo ocasionada pela novidade da prática flexibiliza a proposta editorial de cada veículo. No entanto, todos já concordam com uma premissa: o filtro da redação.

Alvo de acusações de uma provável “censura”, a triagem de editores profissionais sobre o material submetido pelo público se torna necessária à medida em que tais espaços se propõem “jornalísticos”. Para tanto, o compromisso com a realidade ainda se sustenta. Realidade esta que se torna mais viável após processos de checagem de fatos, eventual correção de dados e adequação a uma linguagem de fácil
compreensão. Este é o trabalho desenvolvido por jornalistas profissionais em processos colaborativos e que distinguem o conteúdo publicado nestes ambientes do material levado a público em plataformas abertas como YouTube, Wikipedia, Flickr e grande parte da blogosfera. É aí que se diferencia jornalismo colaborativo de conteúdo colaborativo.

A curta trajetória e o caráter experimental das práticas colaborativas no jornalismo ainda deixam pontos a ser explorados e aprimorados. Com grande apelo à publicação de matérias, os braços colaborativos de grandes veículos pecam ao desconsiderar a importância de seus conteúdos. São raros os internautas que lêem as notícias produzidas por outros internautas. E por quê? A falta de destaque editorial pode estar entre as razões, mas certamente não encerra a escuridão onde o conteúdo produzido pelo público cai uma vez que é publicado.

Outra hipótese seria uma relação equivocada entre a abrangência (nacional) destes veículos e a relevância (hiperlocal) dos fatos ali relatados pelos cidadãos repórteres.
Rede é nicho e veículos consagrados em cobrir acontecimentos de grande repercussão certamente não serão lembrados por moradores de pequenas comunidades em busca de informações que interferem diretamente no seu dia-a-dia. Esta é a noção de “village reporter”, desenvolvida por Oh Yeon Ho, fundador do OhmyNews.

Em locais afastados dos grandes centros urbanos, antenas parabólicas em sítios de beira de estrada mantêm os moradores informados sobre as guerras no oriente médio e as variações na bolsa de valores. Porém, o desmoronamento de uma parede de rochas no caminho à cidade e a chegada de vacinas contra febre amarela no posto de saúde a 25km dali passam ao largo destes noticiários.

É aí que entra em cena o jornalismo colaborativo, um terreno fértil de experimentações e benefícios comuns.


* Originalmente publicado no e-book “Para Entender a Internet”.

¹ Ana Brambilla é jornalista e mestre em comunicação, com ênfase em práticas colaborativas. É coordenadora de Social Media do porta Terra e owner do blog Libellus em http://www.anabrambilla.com


Twitter: @anabrambilla

Brecha Digital / Exclusão Digital*

Sunday de Edward Hopper


por
Rodrigo Savazoni¹


O termo brecha digital (digital divide), também adotado nos países que falam castelhano, nos ensina a Wikipedia em inglês, foi criado em meados dos anos 90 e seus principais difusores foram o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e seu então vice- presidente Al Gore.

A wikipedia em português, no entanto, não registra a expressão, porque ela não é muito difundida no Brasil. Por aqui, o termo que se convencionou utilizar para tratar do acesso desigual às tecnologias de informação e comunicação (TICs) foi exclusão digital.

Conforme aponta a enciclopédia colaborativa, no entanto, “os dois termos não são sinônimos perfeitos, pois enquanto exclusão digital se refere apenas a um dos lados da questão, brecha digital faz referência à própria diferença entre excluídos e incluídos.”

Tradução feita, este é, sem dúvida, um dos temas centrais dos embates políticos que ocorrem no Brasil contemporâneo, país de mais de 180 milhões de habitantes e que deve ter hoje, sendo bem otimista, cerca de 70 milhões de usuários da rede mundial de computadores (pesquisa Datafolha).

O acesso desigual às TICs pode ser verificado em desníveis territoriais, de renda, gênero, raça e acesso à educação. Conforme a maioria dos estudos apontam, é um elemento que acompanha e aprofunda o nível de exclusão e pobreza.

Um exemplo de desigualdade territorial é apontado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em sua edição de 2007, o a pequisa aponta que cerca de 20% de residências do país têm acesso à internet. Nas regiões norte e nordeste, no entanto, esse número não chega a 10%.

Nos últimos tempos, com a veloz transformação das tecnologias, o problema se tornou ainda mais complexo, posto que atualmente não se restringe mais ao simples acesso à rede. A superação da exclusão digital atualmente passa pelo acesso à banda larga, à conexão de alta velocidade, que permite ao usuário uma experiência completa de uso da web (com downloads e uploads de dados).

Os esforços de inclusão promovidos pelo poder público, a sociedade civil organizada e a iniciativa privada têm ajudado a construir pontes sobre a brecha, reduzindo assim a exclusão digital. Entre elas, vale destacar a proliferação de lan houses, pequenos centros pagos de acesso a computadores em rede, e a ampliação do número de políticas públicas em âmbito municipal, estadual e federal.

Entre as políticas recentemente anunciadas – a qual foi recebida com júbilo pelos ativistas e militantes da inclusão digital – está a conexão de todas as escolas públicas federais até o ano de 2010, conforme acordado entre o governo Lula e as operadoras de telefonia concessionárias do serviço de telecomunicações em território nacional. Isso, no entanto, esbarra na inexistência de uma infra-estrutura pública de acesso à internet, que possa levar conectividade às regiões economicamente pouco atraentes.

Atualmente 2,4 mil dos 5,5 mil do Brasil têm acesso à banda larga, conforme dados do Atlas Brasileiro de Telecomunicações 2009. Esses municípios representam 145,5 milhões de habitantes, ou 77,7% da população nacional. Os números demonstram que quase 1⁄4 da população brasileira inicia sua trajetória em condições desiguais de acesso à cidadania na era da informação.

Se entendemos que a era digital traz benefícios para os seres humanos, uma de nossas lutas principais deve focar a extensão dessas possibilidades a todos que vivem neste planeta, a começar pelo nosso país.


* Originalmente publicado no e-book “Para Entender a Internet”.

¹ Rodrigo Savazoni, jornalista, é diretor do Laboratório Brasileiro de Cultura Digital e coordenador do Fórum da Cultura Digital Brasileira, iniciativa do Ministério da Cultura e da Rede Nacional de Pesquisa. Foi Editor de Novos Projetos do Estadão.com.br em 2008 e Editor Chefe da Agência Brasil, entre 2005 e 2007.


Twitter: @rodrigosavazoni

Ecologia Digital*

imagem por hlkljgk

 por
José Murilo Junior¹

A concepção hoje corrente sobre ‘meio-ambiente’, como algo a ser protegido por intermédio de uma mobilização social, não existe há muito tempo. A partir da segunda metade do século XX, o movimento que veio a ser chamado de ambientalista cunhou este conceito para abranger um conjunto de fenômenos que de outra forma pareceriam não ter nenhuma relação entre si: poluição, destruição de habitats, conservação, extinção de espécies, atitudes em relação à natureza, etc. O objetivo foi atrair o interesse de grupos diversos, que a princípio não teriam nenhuma afinidade, mas que vieram a formar coalizões significativas na popularização das causas ecológicas. O que poderia unir os caçadores aos observadores de pássaros, ou o doente de asma na poluição de São Paulo com o pescador de lagosta no nordeste?

Sabemos que o processo de formação dos movimentos sociais ambientalistas vai muito além da simples manipulação semântica. De fato, a mobilização teve origem nas descobertas da ciência sobre as frágeis interconexões dos sistemas vivos, em conjunção com as análises sobre externalidades econômicas negativas -- como por exemplo, a poluição gerada pelas atividades industriais, que por ser invisível (ou não facilmente
mensurável), teve seu custo social ignorado por muito tempo. A convergência dos dados oriundos de diferentes perspectivas aportaram ao nascente movimento ambientalista um conjunto de ferramentas conceituais e analíticas, o que permitiu o surgimento de uma profunda e eficaz crítica à ortodoxia econômica construída sobre a premissa do crescimento perpétuo. Desde então, questões ecológicas / ambientais ganharam influência permanente no debate global, e na formulação das leis que ordenam o impacto
das atividades econômicas sobre o meio-ambiente.

O advento da popularização das tecnologias digitais, em paralelo com a hiperconexão trazida pela Internet, criou o que muitos hoje chamam de ambiente digital. Neste espaço vimos nascer uma nova ecologia do conhecimento e da cultura, que tem gerado impactos significativos nos processos de acesso, produção, reprodução, distribuição e armazenamento de conteúdos. Este novo ambiente é, em última instância,
formatado pelo marco legal dos direitos de propriedade intelectual vigente. Na sociedade da informação, acesso ao conhecimento e à cultura, liberdade de expressão, criatividade digital, inovação científica e outros benefícios potencializados pela rede global dependem diretamente do reconhecimento da importância de uma esfera pública fortalecida. Entretanto, como resultado da pressão de setores organizados da indústria cultural, a evolução das leis que regulam os direitos de autor nas últimas décadas foi pautada pela ógica da sobre-proteção -- quanto maior o controle no acesso, por mais tempo, melhor.

A Ecologia Digital argumenta, de forma análoga ao movimento ambientalista, que devemos tornar visíveis as contribuições invisíveis do domínio público ao desenvolvimento da sociedade da informação. É fundamental que possamos demonstrar os “serviços ao ecossistema” prestados pelo reservatório vital de liberdade na cultura e na ciência. Este novo ativismo deve desenvolver um conjunto de ferramentas conceituais e analíticas
apto a revelar um melhor entendimento econômico sobre os processos de criatividade distribuída (open source), e uma análise mais refinada da importância do ‘outro lado’ da propriedade intelectual. Nesta perspectiva, o domínio público é vital para a inovação e a cultura, da mesma forma como o são os conteúdos protegidos por direitos autorais.

Os ambientalistas obtiveram êxito em demonstrar a importância da ecologia para a saúde humana, e a necessidade de um desenvolvimento sustentável. Cabe ao ativismo da ecologia digital promover uma perspectiva mais sofisticada sobre o necessário equilíbrio entre os direitos de propriedade intelectual e o domínio público. A missão deste novo ativismo é popularizar a visão de que, sob o paradigma da sociedade da informação, os processos de inovação se dão no âmbito da interação dinâmica entre as dimensões do conteúdo livre e do conteúdo protegido. Neste sentido, é necessária revisão urgente dos marcos regulatórios
de propriedade intelectual subordinados à lógica de sobre-proteção dos direitos de autor.

Assim como outrora foi criada a noção de ambiente, cabe agora ao ambientalismo digital (cultural) inventar o domínio público, antes de salvá-lo.


* Originalmente publicado no e-book “Para Entender a Internet”.

¹ José Murilo Junior se apresenta: Sou um blogueiro brasileiro. ‘Ecologia Digital’, o blog, foi lançado em 2002, e desde o início a idéia era registrar o ativismo digital que surgia em questões relacionadas a abusos na proteção de direitos autorais e manutenção das liberdades civis no ambiente da rede. Desde 2004 ocupo o cargo de Gerente de Informações Estratégicas no Ministério da Cultura, e o objetivo maior é desenvolver projetos open source dentro do governo, transformando possibilidades avançadas da web em política pública. Minha atividade blogueira me levou a conhecer o Global Voices Online em 2006, e além de fundar o GVO em Português, colaboro como editor de Língua Portuguesa no projeto. As blogadas em inglês ficam no ‘Eco-Rama’. Minha graduação é em Psicologia Clínica - CEUB, com passagens pela Sociologia e Filosofia na UnB. Fui guitarrista da ‘Banda 69’ nos anos dourados do Rock em Brasília (81 a 85), moro na comunidade Céu do planalto desde 1994, e tenho 4 filhos: Luiza (21), Gabriela (17), Miguel (16) e Elisa (3).

Twitter: @josemurilo

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Narrativa Transmídia: um "causo", vários formatos

por
Gilmar R. Silva*

Não resisto a uma boa história, aqui no Vale do Paraíba e na Serra da Mantiqueira os mais velhos chamam de causo. Convido o leitor para dois dedinhos de prosa sobre histórias na Era Digital.

Sempre admirei os contadores de história, diferente dos políticos, seus motivos são nobres, divertem e ensinam. Seja na festa da firma, no churrasco da pelada, em um Luau ou no almoço de domingo em família, as pessoas não conseguem tirar os olhos deles. Contadores de histórias talvez só percam em popularidade para o sujeito do banquinho e violão. É, não da pra ganhar todas, diria meu avô Chrispim, um proseador nato.

Mas como disse sou do vale do Paraíba, da Serra da Mantiqueira, cresci vendo bons contadores de causos. Filho de gente da roça, convivi desde pequeno com gente simples , pequenos agricultores que, sempre que vinham a “cidade” faziam questão de passar na casa do “cumpadi” Laurindo e da “cumadi” Miguelina, meus pais. Adorava os causos que contavam. Hoje, mais velho, no entanto me acostumei a ouvir as mesmas histórias no SESC, onde até pouco tempo trabalhava com cultura digital. No SESC domingo é dia de teatro infantil e contação de história. Foi num domingo de maio que ouvi os causos de Seu Ditão Virgilio, o melhor contador de histórias que já ouvi. Natural de São Luiz do Paraitinga, Seu Ditão não precisa de indumentária, de nada. Não é ator, é melhor, é um caipira autêntico, só conta causo em que acredita, um melhor que o outro. Mas não são só suas histórias que impressionam, a maneira como ele atrai a atenção dos ouvintes, de crianças à adultos, é espantosa. Suas histórias de saci, mula sem cabeça, Jeca Tatu, vão além da oralidade. Tem o olho esbugalhado, o arrepio que gela, o riso brincalhão o sorriso singelo e toda uma sonoplastia peculiar que vai do cavalo em disparada ao barulho do vento.

Suas histórias são ótimas mas, não fosse o meio.

Pra mim Seu Ditão faz toda a diferença. Protagonista, parente ou amigo dos personagens principais de suas histórias, Seu Ditão faz-se verdadeiro, dá detalhes, conta onde aconteceu, a que horas, que roupas as pessoas vestiam, o que sentiram, como estão hoje. “Tudo verdade”. Questionado responderia assim, “Juro que vi” ou “Ouvi do cumpadi Vená, e o cumpadi não é de mentir”.

E o jornalismo com isso?

Não duvido do Seu Ditão, pudera eu ter a mesma habilidade dele para empregar no jornalismo. As histórias de Seu Ditão não tem buracos, Seu Ditão não come barriga. Respeita o lead, responde a ele e vai além, trabalha com fantasia, sons, apresenta toda uma mise en scène.

Fosse um jornalista, Seu Ditão seria um outlier, um mix de repórter de rádio bom de improviso, com repórter gonzo piadista, com tino de repórter policial compromissado com o lead, e o melhor, sensível ao seu entorno como os grandes mestres do jornalismo literário.Um grande contador de história.

Reunir todas essas habilidades não é fácil, mas conquistar a atenção dos leitores, telespectadores e ouvintes talvez não seja tão difícil.E é isso que busco. Hoje o jornalismo se apresenta de maneira diferente, não temos apenas jornal, televisão e rádio. Temos toda sorte de gadgets eletrônicas que podem servir de plataforma para informação.De repente o rádio está na internet, o telejornal pode ser conferido no celular, a charge do dia é acessada pelo tablet , a condição do tráfego está a disposição no painel do carro e o bom e velho o porta retratos nos fornece a previsão climática. Tudo junto e misturado.E as pessoas cada vez mais estarão propícias a acessar tais conteúdos e se sentirem confortáveis ao fazer o uso dos mesmos. Isso porque nos tornaremos cada vez mais adaptados as novas tecnologias, assim como incorporamos o carro ao nosso dia e fazemos o uso deste como uma extensão do nosso corpo ao encararmos o trânsito, já o fazemos também com o celular(você nunca se pegou em um lugar e ao bater a mão no bolso, notando a falta do telefone, se sentiu mal, a ponto de se sentir incompleto, como se algo estivesse faltando?) e o faremos com outras gadgets eletrônicas.

Seu Ditão enquanto contador de histórias se destaca pela maneira criativa e competente que utiliza para contar suas aventuras. Como um jornalista ele vive ou ouve de quem viveu seus causos e os relata. Suas histórias cativam a audiência, mas tal audiência restringe-se a poucas pessoas, dá-se no campo da História Oral. Talvez não possamos ser tão bons em contar uma história como Seu Ditão, e uma baixa audiência não costuma cativar nós jornalistas. Mas podemos pegar o espírito multitarefa de Seu Ditão e casá-lo com as novas tecnologias. Vejo deste casamento o surgimento do novo profissional de mídia, um profissional que sabe trabalhar uma mesma informação de maneiras diferentes e em diferentes formatos para que esta atinja mais pessoas. Porque produzir uma informação hoje visando um único meio é muito pouco.

Por quê produzir histórias para um único meio, quando podemos contar a mesma em diferentes formatos, com abordagens distintas, podendo atingir mais e mais pessoas.
Temos de apostar na Narrativa Transmídia, uma vez que tudo está se convergindo, das novas tecnologias às relações dos indivíduos para com as novas mídias, uma história que venha a desenrolar-se através de múltiplas plataformas de mídia, pode vir a contribuir de maneira distinta e valiosa para o todo.

Na narrativa transmídia o conteúdo continua sendo o mais importante, mas utilizar os multimeios de maneira sincronizada e inteligente é requisito essencial para que as diferentes apresentações da história não se tornem repetitivas e venham enriquecer a experiência do leitor frente a informação apresentada, deixando-o confortável para interagir com o tema.

Já temos no jornalismo, exemplos bacanas no campo dos newsgames, da visualização de dados e da cobertura política realizada por blogs e redes sociais , de como a narrativa transmídia pode ser efetiva na disseminação de uma informação.

Com relação a atuação de amadores e seu papel na narrativa transmídia acredito que estes entram no mesmo patamar que veículos consolidados. Exemplos como os fanmades, vídeos e textos criados por fãs, de séries como LOST, Harry Potter e Crepúsculo provam que a audiência tem um grande potencial de transformar a informação e torná-la mais acessível a seus pares. Virais de sucesso na internet como a origem do sabre de luz verde da saga de Star Wars e spoilers sobre LOST também partiram de iniciativas de fãs e não da mídia especializada.

Aos profissionais que se incomodam com o tratamento amador dado a informação original, talvez caiba a estes uma reflexão. Quem conta um conto aumenta um ponto é o que dizem.Tal ponto muitas vezes é tido como um equívoco, um erro, uma mentira. Mas e se no lugar de enxergar algo pejorativo nesse ponto a mais , buscássemos um olhar positivo, algo como um novo ponto de vista, uma nova idéia.Bem se fizermos isso teremos um novo olhar.E depois, seguindo a regra da narrativa transmídia, outro e outro e outro e outro...

Talvez a utópica objetividade tão prezada por alguns colegas não tenha vez na Era Digital.Talvez esta nunca tenha existido.

Bem peço desculpas ao leitor, me estendi além do esperado, já se passaram bem mais que dois dedos de prosa.Espero que tenha rendido um bom causo.

“Tarde proceis”.


* Gilmar R. Silva* é Jornalista especializado em cultura digital e Educador em Audiovisual, Novas Mídias e Cibercultura. Owner da Laranja Pontocom e entusiasta da cultura livre, da cultura pop e da cultura DIY (Faça você mesmo).


Twitter: @Gilmar_

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Nota do Editor


Caros colegas da Imprensa e estudantes de jornalismo, esperava lançar o e-book nesta sexta-feira, dia 20/08, mas devido a outros compromissos profissionais com os quais me comprometi irei adiar o lançamento. Mas não por muito tempo, prometo a coletânea  para o final de agosto, no máximo primeira  semana de setembro. Agora, vale a pena esperar porque o resultado ficou bem legal.Textos espertos de gente bacana da mídia brasileira, diagramação moderna do chapa Fábio França e ilustração do duo Mulheres Barbadas.Biscoito fino e o melhor de graça. 

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

"Grande Reportagem" - novamente em pauta*

 Print screen do site da revista TRIP, que banca as investidas de seus repórteres em  grandes reportagens.




por
Sérgio Vilas Boas¹


Nos anos 1950, bem antes do surgimento da internet, a cultura da imagem começou a alterar significativamente o modo de produção das reportagens impressas sobre povos e culturas pouco conhecidos (dentro e fora das fronteiras nacionais). Repórter e fotógrafo viajavam juntos a fim de “descobrir lugares”. Era assim que o jornalismo desvendava universos fisicamente longínquos. “Os Sertões” (1902), de Euclides da Cunha, é um marco daquele jornalismo antropológico: a terra, o homem, a luta.

Mais de cem anos depois de “Os Sertões”, num contexto de globalização econômica e avanços tecnológicos acelerados, a crença num mundo sem fronteiras parece onipresente. É como se a Terra houvesse sido totalmente esquadrinhada, como se a expressão “tempo real” pudesse ser aplicada a tudo, como se o local e o global, culturalmente falando, fossem indistintos. Quais os impactos disso sobre a cobertura do chamado Brasil Profundo? A prática da “reportagem de imersão”, que busca revelar mundos “estranhos” para o leitor, alterou-se?

Jornalistas de gerações diferentes acreditam que a dinâmica da globalização não reduziu nem eliminou diferenças culturais. “Tenho observado que as culturas locais, mesmo sob o impacto da globalização, com freqüência se reafirmam, encontram formas de sobrevivência e de desenvolvimento, fazendo uso inclusive dos equipamentos que absorvem das culturas envolventes”, observa Carlos Azevedo, ex-repórter da revista “Realidade”, autor da coletânea “Cicatriz de reportagem” (Editora Papagaio).

Em 2008, Azevedo esteve entre os índios caiabis do norte do Mato Grosso (também estivera entre eles em 1962). Os caiabis, conta, adaptaram-se à tecnologia introduzida, mas mantêm-se culturalmente vigorosos. “Há um vasto campo de trabalho para esse jornalismo de interação cultural. A reportagem, quando feita sem etnocentrismos e preconceitos, dá sempre resultados criativos e úteis.”

Indígenas, camponeses, sertanejos, tuaregues, esquimós, cocaleros etc. agora têm mais contato com a urbanidade. Talvez conheçam os “urbanóides” mais do que estes a “eles”. As desconfianças continuam mútuas, porém, apesar das facilidades logísticas e de comunicações. Fernando Molica, colunista de “O Dia” e coordenador do MBA em jornalismo investigativo da FGV, percebe que o mundo está cada vez mais parecido. “Mas é exatamente por isso que o jornal impresso precisa lidar mais com os ‘diferentes’ e com as ‘diferenças’.”

As diferenças num mundo parecido

Leonencio Nossa, repórter do Grupo Estado em Brasília e autor de “Homens invisíveis”, que narra uma expedição liderada por Sydney Possuelo em busca de um povo isolado na Amazônia (os flecheiros), acredita que expor ao leitor culturas desconhecidas é uma forma de aproximar mundos. “Esse tipo de reportagem não está na contramão do mundo globalizado e digital. Pelo contrário. Uma matéria sobre um menino matis do Rio Ituí, por exemplo, reflete os novos tempos”, afirma. “Há populações desconhecidas até para moradores dos centros urbanos próximos.”

Cinqüenta anos atrás, muitas reportagens em zonas de fronteira eram especiais pelo simples fato de que jornalistas haviam estado “lá” para contar o que viram. Hoje em dia é mais difícil essas matérias estarem dissociadas da agenda jornalística. “O importante é colocar no debate proposto pelo jornal indivíduos que possam acrescentar algo à nossa vida por seu imaginário, sua forma de viver e, mais ainda, sua extraordinária capacidade de vencer a luta cotidiana contra a natureza, seus códigos e castigos”, observa Leonencio.

É consenso que a era digital facilitou alguns processos de apuração, mas o trabalho de campo não poderá ser suprimido tão cedo. Em “reportagens de fronteira” a presença do repórter é decisiva. É em campo que histórias são compreendidas; é em campo que os atores principais são identificados e destacados; é em campo que os cenários e percepções (do repórter e do “outro”) geram sentido. Memórias e tradições ainda não são apuráveis via Google; e uma webcam é insuficiente para captar um conflito existencial, por exemplo.

As telecomunicações possibilitam, conectam, aproximam. Mas as viagens (em sentido amplo) continuam sendo indispensáveis em pautas de imersão. Alguma forma de “deslocamento” – ou talvez “descolamento” – é inevitável. “Um dos papéis do jornalismo é traduzir coisas que nos parecem fora de ordem”, reflete Molica. “Por que um jovem árabe amarra um cinturão de bombas e se explode? Cabe a nós tentar entender isso em termos culturais, até porque aqui mesmo, no Rio, temos meninos que se imolam.”

“Importante ir lá e ver de perto”

Marcelo Beraba, editor-chefe do “Estadão”, afirma que a linha editorial do Grupo Estado contempla essa busca por “novas fronteiras”, desde que a narrativa seja “inteligente e agradável”. “Em certas matérias podemos pegar especialistas e dados e construir um texto. Noutras, não. É importante ir lá e ver de perto”, enfatiza. “Há hoje mais reportagem em jornal do que em outras mídias. Em algumas editorias às vezes mais que em outras; e em alguns dias mais que noutros. Mas sempre há reportagem na mídia tradicional.”

Além do deslocamento (ou descolamento) cultural, um repórter precisa mover-se longas distâncias para cruzar uma “zona de fronteira”? “Não”, assegura o veterano Ricardo Kotscho, repórter da revista “Brasileiros”. “Uma boa pauta pode estar a alguns metros da redação. Mas é preciso ter capacidade de identificar a boa história. O problema é que quase ninguém mais cobre a cidade inteira. Cobre apenas partes dela, as chamadas áreas nobres.”

Repórter especial do diário português “Público” há vinte anos, Paulo Moura lembra que viagem e reportagem aprofundada estão intimamente ligadas: “A ideia de viagem desfigurou-se com o turismo de massas. Mas não é fácil viajar. É possível ir a um lugar incrível e voltar sem nada para contar. Viagem implica uma atitude e um método: saber observar, saber fazer perguntas, saber envolvermo-nos nos acontecimentos e nas histórias. Uma viagem é sempre uma reportagem”.

Paulo Totti, também veterano e atualmente na equipe de repórteres especiais do “Valor Econômico”, tem viajado pelo Brasil e pelo mundo escavando histórias que ligam o mundo da economia ao das culturas locais, pressupondo que os empresários, potenciais leitores do “Valor”, não estão interessados apenas em matemáticas financeiras. “Seja no interior do Maranhão ou na China, minhas viagens são bancadas pela empresa”, afirma. “Mas suspeito que 80% das matérias que exigem que o repórter saia da cadeira são pagas pelos respectivos interessados no assunto”, lamenta.

No passado os jornalistas viajavam mais que hoje? “Isso não é verdade”, rebate Marcelo Beraba. “Antigamente, viajávamos muito e hoje também. ‘Estadão’, ‘Folha’ e ‘O Globo’, por exemplo, têm equipes viajando neste momento para vários lugares do mundo: Chile, Iraque, Haiti, Iêmen, Amazônia e outros lugares onde é necessária a nossa presença. Se fazemos isso o suficiente para cobrir bem o Brasil como um todo, aí é outra coisa. Diria que não é suficiente. Mas no passado também não era.”

Para Ricardo Kotscho, os jornais vêm diminuindo gradualmente os investimentos em reportagens detalhadas. “Grandes reportagens são raras na imprensa brasileira, mais preocupada com futricas políticas, denúncias, escândalos, celebridades, notinhas e com a editorialização do noticiário. Por isso, surpreendem cada vez menos o leitor, que, aos poucos, vai deixando de ler e de assinar jornais e revistas”, adverte.

Apesar da palavra “grande” no nome, uma “grande reportagem” não é, necessariamente, uma reportagem longa, jornalistas concordam. A palavra “grande” – no caso brasileiro – serve para substituir qualificativos como “in loco”, “detalhada”, “vivencial”, “aprofundada”, “interpretativa”, “humanizada” (mais ancorada em personagens do que em relatórios e estatísticas) etc. “Assuntos importantes, polêmicos e desafiadores continuam atraentes para os leitores. Mas estamos falando de qualidade, não de quantidade”, afirma Azevedo.

OS SERTÕES PROFUNDOS

Afinal, o que é Brasil Profundo? As definições variam conforme a época. “Euclides da Cunha imortalizou a palavra sertão, termo que, nos primórdios da ocupação, referia-se a algumas léguas do pátio do colégio jesuíta de São Paulo. Com o avanço das bandeiras, o sertão foi se afastando das cidades, e daí surgiram os ‘sertões goianos’, os ‘sertões de Minas’, os ‘sertões do Mato Grosso’ etc.”, observa Leonencio Nossa, que escreveu reportagens seriadas para o “Estadão” sobre temas amazônicos.

Recentemente, os jornais passaram a trocar a palavra sertão por termos como “Brasil Profundo”, “grotão” e “rincão”. “Mas prevalecia a ideia de Euclides expressa em ‘Os Sertões’ de que esse Brasil Profundo acabaria extinto pelo avanço da tecnologia e dos meios de comunicação e de transporte”, lembra Leonencio. “No entanto, o sertão, ou Brasil Profundo, poderá continuar sendo um espaço longínquo.”

“Sertão não é necessariamente a Região Nordeste”

Mais tarde o sertão ficaria associado ao interior do Nordeste, especificamente, e não mais à direção oeste em geral. “Nos livros escolares aprendi que o sertão ou era puro ou era um inferno, mas sempre exótico”, conta Demitri Túlio, repórter de “O Povo”, de Fortaleza. Demitri integrou a equipe que produziu cadernos especiais temáticos seriados (e premiados) sobre o sertão cearense. Foram três cadernos de doze páginas enfocando “mares do sertão”, “desertos do sertão” e “chuvas do sertão”.

“O sertão está em outras regiões do país e mesmo na África e no Oriente médio. É um lugar de ‘ressurgência’, não de mortificação. Imagine se pensássemos o Rio como um lugar apenas de violência e tráfico; ou São Paulo apenas como uma cidade saturada. Os estereótipos podem matar o bom jornalismo e contribuir para a consolidação de valores equivocados. Por isso esse tipo de reportagem é importante”, argumenta Demitri.

AMAZÔNIA AINDA FASCINA

A Amazônia, universo cujo gigantismo é impossível de ser compreendido em sua totalidade, como escreveu Euclides da Cunha no início do século XX, continua fascinando o jornalismo e o público. Não se trata mais de uma região isolada, propriamente. Muitas populações indígenas e comunidades ribeirinhas estão agora equipadas com internet e telefonia móvel, por exemplo, mas a dificuldade de acesso físico aos locais continua encarecendo a produção jornalística.

Aruana Brianezi, editora executiva do jornal “A Crítica”, em Manaus, conta hoje com uma equipe que “domina assuntos relacionados à Amazônia”. As pautas mais comuns referem-se ao cotidiano dos moradores do interior. “Temos correspondentes em Parintins e um colaborador em Manacapuru, e equipes da capital viajam pelo menos uma vez a cada 15 dias”, diz. “Mas os deslocamentos têm alto custo. Poucas cidades possuem aeroportos, não há estradas ligando a maioria dos municípios e essas viagens tendem a ser longas.”

Editores e repórteres concordam que um dos caminhos para diversificar a pauta e ampliar assuntos é trabalhar histórias que girem em torno da vivência de personagens. “Concentrar a história nos personagens e não nas estatísticas oficiais ou no discurso de gabinete é uma maneira de pegar o leitor pela identificação. Isso nunca deixou de ter importância”, acredita Demitri Túlio, repórter especial de “O Povo”.

Em 2006, “O Povo” ganhou o prêmio Tim Lopes de Investigação da Agência Nacional dos Direitos da Criança e Adolescentes (Andi). “Na verdade, era uma bolsa para custear despesas de grande reportagem. Fizemos então um caderno de doze páginas (mais uma série durante dez dias) sobre exploração sexual e comercial de meninas e meninos nas BRs do Nordeste”, lembra. “Não inventamos a roda. Apenas centramos tudo na fala das pessoas. A parcela ‘oficial’ da apuração saiu em rodapés ou em forma de anexos.”

REPORTAGEM É UM PRODUTO CARO, SEMPRE

Reportagens especiais planejadas com base em aprofundamentos e vivências não precisam ser necessariamente longas, mas em geral envolvem deslocamentos, observação de campo, pesquisas bibliográficas e personagens relevantes. Na era da internet, editores e repórteres reafirmam a necessidade de matérias jornalísticas situadas fora da agenda do dia, mesmo reconhecendo que isto requer investimentos financeiros e humanos.

“Apesar de não vermos nos jornais uma cobertura extensiva e regular da complexidade nacional, ainda assim os recursos investidos nisso são muito altos. Há milhares de blogs com opiniões, palpites, análises etc. Ok, mas quem está lá, quem tem um sujeito lá, em campo, são as mídias tradicionais. Mal ou bem, esse é o diferencial de um jornal. E não é barato”, enfatiza Marcelo Beraba, do “Estadão”.

“Não acredito que o custo de uma grande reportagem seja maior hoje do que era, ou que as empresas sejam hoje mais pobres do que nos tempos em que a reportagem era o carro-chefe dos grandes jornais. A revista “Brasileiros”, onde trabalho, é uma prova de que é possível fazer reportagem sem gastar muito. Está nas bancas há mais de dois anos sem uma grande empresa por trás, embora ainda lute para ter o devido retorno em publicidade”, opina Ricardo Kotscho.

Na impossibilidade de percorrerem-se longas distâncias, as metrópoles-sedes dos principais jornais são um cosmo repleto de pautas para reportagens especiais diferenciadas. As cidades contêm mundos dentro de mundos, e variadas zonas de fronteira cultural e socioeconômica à espera de jornalistas com “espírito livre”. Paulo Moura, do diário português “Publico”, acredita que é possível produzir boa reportagem sem gastar muito.

“Os lugares onde a vida é mais cara ficam nos países do Ocidente, ou nas grandes cidades onde a maior parte dos grandes jornais está baseada. Aquilo que se poupa num mês a viver numa zona periférica é suficiente para pagar a viagem até lá. Além disso, o enfoque pode fazer-se ao virar da esquina”, propõe. Na Amazônia, porém, esta ainda é uma meta difícil.

“Não há como produzir qualquer reportagem desse tipo fora de Manaus sem que se gaste um valor considerável. O acesso aos rincões se dá, via de regra, em aviões de pequeno porte (que precisam ser alugados) ou em embarcações movidas a diesel. O deslocamento é o componente mais pesado dos orçamentos de viagens aqui”, analisa Aruana Brianezi, de “A Crítica”.

A INTERNET ESTÁ SUBUTILIZADA

Impresso e internet podem se unir para realizar e difundir reportagens inovadoras e em profundidade a respeito do “distante” (que pode estar tanto ali quanto na outra ponta do mundo)? Paulo Moura, repórter especial do diário português “Público” desde 1989, acredita que sim. “Há toda uma série de novas experiências com as linguagens que a internet tornou possíveis, e que se definem pela conjugação de vários elementos – imagem, som, infografia, texto. Uma mesma história sobre um povo ou um lugar pode ser contada em várias linguagens articuladas”, reflete.

As mídias audiovisuais e digitais facilitaram o contato cultural do público com informações gerais sobre povos e lugares. Mas os jornalistas acreditam que sites e programas de TV e documentários muitas vezes reforçam o “exótico” e o “estranho”. “O exotismo e a estranheza continuam lá, mas já não basta mostrar os clichês e os fenômenos superficiais. É preciso ir fundo, descrever, narrar o que é realmente único a fim de atingir o universal. Isso torna o desafio do jornalista ainda maior”, diz Moura.

Parece consenso que o impresso não tem como concorrer com a internet no quesito velocidade de transmissão. Ricardo Kotscho, da revista “Brasileiros”, acha que impresso e online são mundos distintos, e cada um tem de respeitar “sua própria natureza”. “Reportagens inovadoras e em profundidade ainda são produtos para jornais e revistas. Por experiência própria, textos mais detalhados não funcionam na internet, que é mais fast food. O internauta só costuma ler o título e dois parágrafos e já manda um comentário. Parece mais preocupado em dizer o que pensa do que em ler”.

Por outro lado, o potencial da internet ainda está subutilizado. Em termos de multimídia, a produção de “reportagens de imersão” planejadas exclusivamente para o online ainda é tímida no Brasil. A seção Special Report do site Tampabay.com, vinculado ao jornal americano “St. Petersburg Times”, por exemplo, se tornou conhecida pela edição ousada de matérias redigidas com aprofundamento e detalhe, e aproveitando com criatividade todos os recursos de áudio, foto e vídeo à disposição.

A internet costuma ser vista também como uma espécie de braço direito da globalização, na medida em que ajuda a tornar próximo o que é distante; fácil o que é complexo; familiar o que é estranho. “Mas é exatamente isto que nos leva a crer que está tudo enfadonho, previsível e até fictício. As coisas humanas são, por natureza, diversas. O jornalismo impresso deve então especializar-se em procurar o que é diferente, o que é rebelde, o que é autêntico, o que é irredutível”, propõe Moura.

Atualmente o jornalista pode levar para campo um arsenal de máquinas como laptops, celulares, telefones por satélite, câmeras etc; pode ainda operar essas máquinas com facilidade e rapidez, sem a necessidade de apoio técnico especializado. “Qualquer um pode ir, com um laptop e um celular, por exemplo, para a selva do Congo ou para uma aldeia na Sibéria. Mas só fará um trabalho interessante quem tiver inteligência, cultura e criatividade”, reflete Moura.

*Originalmente publicado no “Jornal da ANJ”, edição de abril de 2010



¹Sérgio V. Boas é escritor, professor de Jornalismo Literário na ABJL e editor do www.textovivo.com.br.



Twitter: @Serg_Vilas_Boas